A SUPERFICIAL DOMESTICAÇÃO DO MITO

Por André Silva Carvalho - Graduado e Mestrando em História pela UEFS e atuação em História Política.


O “ Mito” venceu as eleições presidenciais no Brasil com 55,1% dos votos válidos contra 44, 9 % de seu opositor o Professor Doutor Fernando Haddad, com uma diferença de pouco mais de 10 milhões de votos. O Mito de George Sorel significava a massa dos sentimentos desejada para a luta política (SOREL. 1990 p.115). Cabe ao mito fazer a leitura racional dos sentimentos e espíritos humanos para construir práticas irracionais. Mas de certo, o Capitão Jair Messias não possui condições histórico – políticas necessárias para fazer tamanha leitura, e por menos pô – las em prática com uma organicidade suficiente a fim de alcançar o êxito no pleito eleitoral. Então, cabe a reflexão: O que se esconde por trás do “Mito”?  Quais foram às primeiras células a sintetizar os germes de uma vontade coletiva e a torná – las universais, palatáveis ao senso comum? 

O domínio das redes sociais não foi privilégio de Bolsonaro, a onda de digital influência e do marketing digital surge a partir de 2004 com a web 2.0, a TV passou cada vez mais a perder espaço para as mídias digitais, 82% dos vídeos consumidos atualmente pelos brasileiros são de vídeos sob demanda. A fórmula mágica de atingir o público digital chegou à política, e a primeira grande expressão foi a eleição do presidente estado-unidense Donald Trump em 2016. No Brasil o Instituto Mises, Instituto Millenium passaram a financiar youtubers para massificar ideias liberais, políticas, econômicas e sociais. O interesse de jovens pelo tema economia teve umboom , professores das ciências humanas se depararam com a frase “ Mais Mises, Menos Marx”, paralelo a esse fenômeno, o projeto “ Escola sem partido” , chegava para combater o que os conservadores denominam por “Doutrinação”, professores (as) viram – se intimidados a abordar temas já cristalizados nas ciências humanas como: Nazismo, Fascismo, Marxismo, Gênero, entre outros. 

Em outra frente, o conservadorismo ganhava espaço nas Igrejas Evangélicas, sobretudo as neo pentecostais, no setores médios da pequena burguesia, nas elites agrárias, que tiveram suas expressões políticas organizadas por grupos políticos que viram em Jair Bolsonaro um protótipo capaz de encampar esses anseios, com frases feitas em tons de bravatas que não pretendiam em primeiro plano agradar ninguém, mas ao plano de fundo era música aos ouvidos das classes médias, e a cada frase as elites saboreavam o ódio, tornando – se cada vez mais doce ao sabor de quem por 14 anos se alimentava do gosto amargo de fel do PT. “ O discuso mítico apela pela restauração, sempre de resgatar um passado “grandioso”, no príncipe o aspecto de restauração é apenas retórico, não há um projeto original, concreto, orientado para metas concretas e racionais” (Gramsci, Antonio, Cadernos do Cárcere v.3). 

Nada como evocar um Brasil de 50 anos atrás para mexer com o imaginário dos brasileiros, que na verdade nunca tiveram esse passado esplendoroso de outrora, no máximo arroubos de desenvolvimentismo, nada de novo abaixo da linha do equador.  “ O príncipe deve, e não pode deixar de ser, o anunciador e organizador de uma reforma intelectual e moral, o que significa criar um terreno para um novo desenvolvimento da vontade coletiva nacional – popular”. (Gramsci, Antonio, Cadernos do Cárcere v.3).  O príncipe Jair “ o anunciador”, entre um impropério racista, homofóbico, machista, desumano e outro abria o campo de perspectivas de sua base social a livrar – se do passado Petista de reparação social, e de acentuar novamente as desigualdades, retirando a sombra da classe trabalhadora das proximidades da pequena burguesia e das elites, o sonho abriu a esperança reacendeu, enfim há um céu de brigadeiro sem a pobreza nas universidades, aeroportos, postos de trabalho, o acinte de eliminar a lógica escravista de sustentação dos privilégios mediante solapamento das classes trabalhadoras está de uma vez por todas eliminado, ao menos por agora. Todo o investimento em Fakenews criou um novo Estado “Educador”, sem a interferência dos conteúdos “esquerdistas”, apenas a “verdade” que os libertará. O campo está aberto, sem Kit Gay, ou Ideologia de Gênero, apenas a massificação de mão – de – obra para a terceirização, e a retomada da economia nos moldes “Auschwitz”, exagero? Sim, a câmara de gás de fato não será implantada. 

“ O partido do estrangeiro”, não é necessariamente aquele apontado como tal, mas precisamente o mais nacionalista, representa uma subordinação econômica a um grupo de nações hegemônicas” (Gramsci, Antonio, Cadernos do Cárcere v.3).”, Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. De fato Paulo Guedes é o nosso “partido do estrangeiro”, a privatização já eleva os mercados, a bolsa de valores galopa, o dólar cai, não haverá o Lulinha populista com macacão de operário da Petrobrás e mão suja de petróleo transferindo os Royalties para saúde e educação, mas como diz o Sardo Antônio Gramsci “ Nenhuma sociedade se põe tarefas para cuja solução ainda não existam as condições necessárias e suficientes, ou que estejam em vias de se desenvolver”, o Fascismo já foi por vezes combatidos, e os instrumentos históricos eficazes partiram sempre das organizações trabalhadoras, seguiremos lutando e resistindo, afinal não será o senhor William Bonner que domesticará o mito, e sim a classe trabalhadora organizada. Qual será a nossa tragédia? Getúlio Vargas? Fernando Collor? Cenas dos próximos capítulos!


A SUPERFICIAL DOMESTICAÇÃO DO MITO A SUPERFICIAL DOMESTICAÇÃO DO MITO Reviewed by Rede Idea Chek on dezembro 09, 2018 Rating: 5