“AH, MAS TÊM MUITOS NEGROS RACISTAS”


Por Iago Gomes - Professor, LGBT, Militante Anticapitalista e Antirracista e Redator do Blog Idea Chek.


Não é pouco raro após um papo ou exposição sobre racismo ouvir de alguém da plateia e até de colegas debatedores que “muitas vezes o racismo vem das próprias pessoas negras” ou “mas também têm muitos negros racistas”. O mais curioso de tudo é que essas frases costumeiramente são introduzidas com uma partícula, “mas” que na sintaxe de uso prático do locutor serviria pra justificar a existência do racismo por parte dos brancos a partir do que chamam de “racismo por parte dos negros”. Tenho uma avó negra, que se casou com um homem branco, teve várias filhas negras (boa parte, negras de pele clara) e que usualmente soltava pérolas racistas como “negro é tudo ousado”.  Minha vó, tenho desconfianças, nunca se afirmou como negra e nunca teve a chance de se aproximar desse debate que hoje ronda o ativismo de “identidade racial”. Semianalfabeta, aprendeu o básico (seu nome e fazer contas), teve uma infância e uma adolescência pobre, na zona rural, trabalhando como agricultora. Foi morar na cidade após o casamento e lá se tornou dona de casa e ajudante de meu avô, matador de animais de criação. Todos os dias, antes do sol nascer, estava de pé. Cuidava dos afazeres domésticos, ajudava a matar os animais e ainda ajudava a vendê-los. Hoje, viúva, aposentada, não se tornou nenhuma grã-fina ou universitária formada. Sabe que pobre tem que dar o maior duro para conquistar algo ou minimamente comer, ter casa, roupa e trabalho. Minha vó não cita tanto as pérolas racistas, mas sei que em algum momento ela pode fazer isso.
Comumente o racismo passou a ser algo tratado por um viés moral. O uso de algumas palavras passou a ser problematizado, piadas racistas passaram a ser condenadas, situações escancaradas como a recente agressão racial de uma senhora branca a uma mulher negra no metrô passaram a ser alvo de indignação e denúncia. Isso é muito necessário e importante, uma conquista de quem teve que enfrentar leis de segregação racial que iam desde proibição de acentos ao lado de pessoas brancas até a perseguição da prática de capoeira. Isso tudo serve para expor pessoas que são declaradamente racistas, mas é insuficiente para escancarar um sistema que funciona racialmente, disso minha vó entende, porque vivenciou na pele, e toda pessoa negra que também solta pérolas racistas inevitavelmente precisa lidar. Pessoas brancas nem sempre fazem ideia do que estamos falando, porque aprenderam a enxergar o racismo como uma questão moral (pelo menos algumas pessoas), se indignam com situações protagonizadas por Willian Wack, mas não são capazes de perceber o que há por trás da redução da Maioridade Penal, do “bandido bom é bandido morto”, das políticas de encarceramento e genocídio. O racismo moral, aquele que enxergamos na superfície e é visível, existe para legitimar o racismo estrutural e pela lógica sistêmica parte do convencimento de pessoas brancas, mas também de pessoas negras, sem contar que adicionado à disputa econômica de mundo, individualiza e impossibilita que pessoas negras se enxerguem como aliadas, mas como concorrentes diretas à sobrevivência, assim funciona a política atual de drogas, assim funcionava o processo de disputa territorial de África em tempos de dominação europeia pró-colonização e que de uma forma oportunista o candidato eleito à presidência usou para justificar a escravidão como culpa dos negros que entregavam outros negros para serem escravizados.
Se o racismo moral e o racismo estrutural se misturam, edificam-se, logo não podemos compreendê-los em caixinhas separadas. A religião foi uma justificativa para escravizar, negros eram considerados “seres amaldiçoados” e a Bíblia foi usada como forma de “comprovação” sistêmica. Teorias Racialistas que condicionavam o formato do crânio e tamanho de lábios vaginais à criminalidade, entre muitas outras, também foram usadas como formas de justificar a superlotação de presídios por pessoas negras e preparar o caminho para mais. Faz jus o fato de convencer o negro a acreditar que ser negro é algo ruim, e que por isso ele não deve se reconhecer como negro, pode se reconhecer até como moreno, mas como negro não.
A linguagem é algo relevante pra isso tudo, se pelo verbo tudo foi criado, pela linguagem tudo é determinado. As piadas, as expressões, as produções intelectuais, a política, tudo leva o ser negro a um lugar específico na sociedade e, portanto, vamos reproduzir tudo aquilo que a branquitude (termo genérico para atribuição a uma classe privilegiada) impôs como parâmetro e como sistema. No grosso, o povo negro continuará sendo vítima do racismo, mas com um auto-ódio declarado em seu encalço, para assim seguirem nos mantendo reféns da ordem racial estabelecida, o que possibilita até que a gente reconheça nossa classe, mas quase nunca nossa raça. O que a elite ainda não descobriu (e muitos intelectuais de esquerda), é que num país colonizado e forjado a partir de braços negros, pela classe nós reconhecemos a raça e pela raça nós reconhecemos a classe. Não existem muitos negros racistas, existe um sistema racista com um alvo muito bem direcionado.
Se você foi incapaz de entender todas essas linhas, termino com uma indicação de leitura: leia Fanón. “Pele negra, máscaras brancas” é uma bela indicação!

“AH, MAS TÊM MUITOS NEGROS RACISTAS” “AH, MAS TÊM MUITOS NEGROS RACISTAS” Reviewed by Rede Idea Chek on dezembro 12, 2018 Rating: 5