BACO, BK, E DJONGA, QUEM TEM O TRONO DO RAP NACIONAL? (PODE NÃO PARECER, MAS É UM TEXTO SOBRE APROPRIAÇÃO CULTURAL)

Por Henrique Bastos - Estudante de Engenharia da Computação (UEFS) e gosta de discutir artes quase sempre.



Eu tenho uma mania terrível de traçar paralelo entre artistas (entendam paralelos não comparações), inclusive não de qualidade ou como aquilo me afetou, mas o que eles representam ou tentam representar, um exemplo de um desses paralelos que eu criei: Notorious B.I.G - Marcelo D2. Não acho essas pessoas idênticas, pelo contrário, o paralelo entre D2 e Biggie é justamente artistas que se sustentam bastante no flow e fazem isso com maestria (talvez Black Alien melhor que o D2 mas acho mais fácil conhecerem o D2), talvez as semelhanças param por aí .

Mas vamos ao título, existe um artista no rap gringo que se auto-proclamou “Hip-hop rhyme savior”, Kendrick Lamar. Hoje é praticamente impossível não colocar Kendrick entre os melhores rappers da cena atual, mas em 2014 o rap estava indo pra um caminho tão estranho que próprio Kendrick perdeu um Grammy pra Macklemore, mas hoje podemos falar que não dá nem pra comparar (em 2018 Kendrick fez a trilha sonora de Pantera Negra e alguém sabe o que Macklemore fez? ), Kendrick tem um Pulitzer (maior que um Grammy né?) pra chamar de seu.

O que isso tem a ver com o título? Kendrick ocupa o trono do rap gringo (se você discordar eu estou mais que disposto a discutir). Mas quando fui traçar o paralelo me vi dividido entre esses três nomes. Todos possuem semelhanças e simplesmente não consigo decidir, espero que vocês me ajudem.

BK O CATETE E COMPTON
Bk é do catete, sim isso é importante, o rap do Rio de Janeiro sempre foi importante não tenha dúvidas disso, seja com Planet Hemp ou com MVBILL, figuras históricas do rap nacional, mas em meados de 2013 e 2014 os nomes oriundos do rio eram grupos como Oriente e Cone Crew, e um dos meus Mcs favoritos na época, justamente do catete, Filipe Ret. Não me entendam mal gostava desses artistas, o próprio Ret já foi sampleado por dois dos “ heróis” do texto. Se você tá atrás de um rap poético “VVZ’ ainda é um álbum muito bom pra isso, vai atrás. Mas ainda assim me incomodava o fato deles serem todos brancos.

Eis que em 2016 eu conheço Bk, um cara espetacular e reconhecido como dono do melhor álbum de 2016, e que faz questão de deixar claro a todos como ele é muito carioca e como Rio faz parte da personalidade dele (existe outro rapper do catete sem tanta fama mas com um álbum maravilhoso o nome dele é Beni e o álbum se chama Negros. Talvez uma dia eu faça um texto sobre ele).

E o Kendrick com isso? Kendrick é de Compton e isso é importantíssimo de Ice T e 2pac (no triste fim da carreira), a N.W.A, Los Angeles sempre foi importante, inclusive existem boatos que o Kendrick criança estava no clipe de California Love do 2pac com Dr. Dre. Mas Kendrick fez questão de colocar de novo Compton como o centro da cultura do hip-hop. A TDE gravadora de Kendrick é o selo de vários artistas sabe de onde? Compton! Bk e Kendrick fazem valer o lugar de onde vieram!

BACO PERDEU (OU ADQUIRIU) O CONTROL EM SULÍCIDIO
Eu já falei muito do Baco em outro texto, podem conferir se quiserem. Mas em resumo rápido Baco é um rapper de Salvador que quer colocar a Bahia e o Nordeste na cena diferente de BK. O lugar de Baco nunca teve relevância para mídia e ele joga isso na cara de todos o tempo todo.

Mas se Kendrick não precisava disso, qual o paralelo com Baco? Duas faixas que onde os dois só fazem participação, “Control” do Big Sean onde Kendrick chama todos os rappers da cena americana (na época é claro)  para um embate seja você de New York, do Sul, de Los Angeles, ou de Detroit, Kendrick desafiou todos eles em “Control”. Baco, em uma faixa do Diomedes Chinaski, Convocou todos (inclusive Filipe Ret, lembra dele?) para um embate, praticamente anunciou o que ia fazer nos anos seguintes e em outra ocasião aproveitou de novo pra fazer o seu ‘Control” em poetas no topo 2, mas em “Sulicídio” ele dá nome aos bois assim como Kendrick, Baco deixou bem claro que a competitividade dele é um dos motores do rap dele.
Outro paralelo, esse recente, está entre os dois, são Álbuns, Bluesman do Baco, que é justamente Baco revisitando um gênero dos negros para os negros enquanto “To pimp a Butterfly”  é um álbum extremamente conceitual onde o jazz impera e que, como todo álbum de Jazz, a história do álbum é um espetáculo. De novo se você como eu já imaginou como seria um rapper em cima de saxofone e trompetes pesados, esse álbum é pra você.

DJONGA NÃO TEM PENA DE RACISTA, SÓ ISSO!
Devo admitir, dos nossos três heróis, Djonga é o que eu menos escutei, não que ele seja pior, pelo contrário talvez seja o melhor, mas o melhor é subjetivo, apenas não escutei tantas vezes. Mas Djonga é um rapper de Minas Gerais, Belo Horizonte para ser mais exato, assim como os outros amam seu lugar, inclusive a capa do primeiro álbum dele é inspirada no clube da esquina, coletivo que o Milton Nascimento fez parte.

Djonga lançou um álbum maravilhoso em 2018, o álbum mais “de rap” dos três com certeza, a semelhança entre ele e Kendrick, que eu gosto de destacar é voracidade dos dois essa coisa de “fogo nos racista” de Djonga, me lembra D.N.A de Kendrick onde ele a acaba com a Fox News americana e lembra aos brancos e negros o que cada um carrega no DNA. Mas outra semelhança que existe entre os dois: clipes polêmicos, “Alright” de Kendrick onde policiais estão carregando o carro dele, enquanto nosso terceiro herói tem “A música da mãe” onde em meio a vários absurdos acontecendo, o único que causou choque foi um menino branco tomando uma voadora.

FALTA O PARÊNTESES
Os quatro artistas representam uma vitória. Se depois de anos quando se fala em artista atuais de blues, jazz, pagode ou samba vemos os brancos dominando o mercado, no rap os negros retomaram o trono e antes que alguém reclame não há problema em ter rappers brancos, o problema é só haver rappers brancos. Enquanto isso me diga leitor, quem ocupa esse trono? Como eu já disse não consigo decidir.

E o trono é importante? Com certeza, quem o ocupa vai mudar de pessoa a pessoa, mas se não houver esse trono não haverá a competitividade entre os nossos heróis, e o rap brasileiro precisa disso, só olhar o exemplo do que isso fez para Kendrick nos EUA e fez para os nossos heróis de 2016 pra cá.




           


BACO, BK, E DJONGA, QUEM TEM O TRONO DO RAP NACIONAL? (PODE NÃO PARECER, MAS É UM TEXTO SOBRE APROPRIAÇÃO CULTURAL) BACO, BK, E DJONGA, QUEM TEM O TRONO DO RAP NACIONAL? (PODE NÃO PARECER, MAS É UM TEXTO SOBRE APROPRIAÇÃO CULTURAL) Reviewed by Rede Idea Chek on dezembro 28, 2018 Rating: 5