BOLSONARO VAI TOMAR POSSE, E AGORA?

Por Iago Gomes - Professor, Militante Político e Redator do Blog Idea Chek.




Não tenho dúvidas que essa pergunta esteve presente em nossas cabeças desde o final do primeiro turno, mas circula ainda em meio ao fluxo intenso de informações que temos sido mergulhados que vão desde o anúncio de fim de ministérios até os nomes indicados para ocupar pastas do governo, passando por medidas de cortes e mais cortes em diferentes áreas. O primeiro conselho foi dado: respire fundo.

A escalada de crescimento de violência é uma lógica comum à vitória de Jair Messias Bolsonaro nas urnas. O empoderamento do ódio e da opressão faz com pessoas saiam de suas caixas e se sintam à vontade para explanar pensamentos de ataque e destruição do outro como se fossem meramente um exercer da “liberdade de expressão”. Isso, de fato, cria um ambiente ainda maior de ameaça a grupos que socialmente experimentam mais diariamente a barbárie: a juventude Negra, LGBTs, as mulheres, os movimentos sociais, os povos originários, quilombolas, etc.. O medo se espalha a passos rápidos como o principal afeto político, como bem coloca o filósofo Vladimir Safatle, e isso é um perigo, pois ao mesmo que nos paralisa, nos impede de racionalizar a política, que se torna muito mais um campo de emoções e autodefesa do que de disputa de projetos. A vitória nas urnas não poderia se concretizar se antes não ganhassem a anulação de qualquer oposição no campo estratégico, por isso reforço que é preciso fazer um esforço para pensarmos a curto e longo prazo ideias para superar a atmosfera de barbárie e fortalecer a oposição-movimento ao governo.

Primeiro passo é fazermos um balanço sério sobre como chegamos até essa situação. Evidente que reconhecer que há culpabilidade na experiência dos governos petistas no Brasil. O rompimento dos setores da burguesia com Dilma e que culminou no golpe feriram a base popular de sustentação do PT desde os anos dois mil. Antes disso, a influência de massas do petismo sucumbiu à mudança de gerações, a juventude de hoje é outra. Mas não podemos de forma nenhuma, como fazem algumas correntes políticas, negligenciar a historicidade do fenômeno bolsonarista. Nossos regimes e relações políticas são fruto de relacionamentos mal-acabados e de outros mal construídos. O sistema capitalista brasileiro foi construído com uma colonização que permitiu chegar em 2018 ainda com vida. O fim do Regime Militar não significou a derrubada de seus principais construtos, a estrutura da polícia militar é um exemplo. Os pactos feitos para manter a Nova República sustentada por uma democracia para poucos incluiu partidos de esquerda, líderes de movimentos sociais e movimento operário, estruturas de organizações com hierarquia militar. O fenômeno da historicidade é culpado direto da existência de uma burguesia nacional desvinculada de laços nacionalistas e que usa o discurso patriótico em “modelos Românticos”, extremamente racista, raivosa e sem nenhuma amarra ideológica duradoura. Bolsonaro, em um campo abstrato e concreto, é fruto de muita coisa que precisa ser revista e destruída em nossa história política e social. Sem necessitar de filosofia budista, eu diria que é uma chance boa de passarmos nossa história a limpo.

Quais os passos que podemos dar para começarmos imediatamente a resistência? Para início de papo é preciso substituirmos a pergunta feita “O que é esquerda” por “PRA QUE SERVE A ESQUERDA?” Não dá mais para creditarmos forças em uma esquerda ou em simulacros de esquerda que se adequam a gerir a miséria ou como sinônimo de problematizações de internet vinculadas ao identitarismo purista. Se for pra optarmos por uma esquerda que administra o sistema mantendo as mesmas relações sociais e apagando a capacidade de colocar sujeitos em movimento, a gente opta por aqueles que sabem fazer tudo isso com a excelência de fazer parte de tudo isso. Se for para optarmos por memes, problematizações de falas de famosos, a gente monta um blog paparazzi e tá tudo certo. Não dá pra sacrificarmos nossa capacidade de transformar a ordem por manutenção de governabilidade, do contrário seguiremos fazendo histórias repetidas que terminam justamente no ponto onde recomeçam novamente. É preciso respirar e analisar cuidadosamente nossos erros. Destaco alguns pontos, entre muitos, para reflexão.

Fomos engolidos pelo pré-julgamento às Mídias Sociais;

Usamos bem mal o Facebook, o Whatsapp, o Instagram, o Youtuber. Somos poucos e raros entre os destaques de Digital Influencers, os poucos progressistas são engolidos por investimentos empresariais e sucumbem a seus interesses, e nós nos limitamos a criticá-los e não disputá-los. Com tudo isso somado aos altos investimentos da campanha de Bolsonaro e aliados às redes, nós perdemos feio nelas e seguimos fazendo muito errado. Precisamos ampliar o número de mídias independentes de alcance e criar muito material em rede organizado, que não fiquem nas discussões bum’s em torno de Kéferas ou os gêneros mudados de personagens de ânimes. Vale lembrar que 15 minutos de fama para algumas figuras que surfam nos holofotes dessas polêmicas criaram figuras bizarras que hoje ocupam a política institucional ou a rede infinita de influenciadores. Aliás, a primeira aparição de peso de Bolsonaro foi em poucos minutos no CQC.

Faltamos na ausência de dar protagonismo aos sujeitos de fora das bolhas;

A fala de Mano Brown no comício de Haddad no Rio de Janeiro gerou polêmica, mas polêmica com sentido. A esquerda, de pelo menos última década, virou festiva, lacradora e “milituda”. Afastamos a periferia, o conjunto de trabalhadoras e trabalhadores do seio das decisões e protagonismos e substituímos essas vozes por uma classe média branca que inconsequente transformou organizações, partidos e coletivos em meritocráticos e obviamente injustos para quem trabalha mais horas por dia, quem tem mais funções domésticas e menos acesso a conteúdo textual. Precisamos de métodos e estruturas que caibam esses sujeitos como protagonistas e direções. É impensável vivenciarmos uma Contra-Revolução Cultural quando na verdade o que necessitamos é uma revolução da periferia, que seja urbana, de mais direitos e políticas públicas de alcance.

Transformamos estruturas organizativas em quartos que não cabem mais ninguém além de nós e falhamos na linguagem;

O lugar do movimento social não pode ser encarado como um planeta estranho onde seus habitantes são extraterrestres verdes e com uma língua totalmente diferente. As pessoas precisam entender significados objetivos dos movimentos, sua utilidade e obviamente porque que existem, para que também se sintam parte do processo. Faz tanto medo a falta de contato de movimentos sociais com o grosso da população, que projetos de criminalização podem passam de forma mais tranquila, sem tanta movimentação popular. A maioria das pessoas não sabem pra que serve o MTST ou MST, desconhecem o significado de quilombo e enxergam o movimento estudantil como endurecido (porque boa parte assim são). É preciso ressignificar.

Não descemos de nossos saltos;

Não podemos nos achar superiores porque lemos mais sobre política, porque estudamos mais, porque integramos alguma organização ou partido, porque levantamos uma bandeira. Somos espelhos daquilo que queremos como futuro, e tenho certeza que não é um futuro egoísta e soberbo que queremos. Descer de nossos saltos, reconhecer as falhas e perceber críticas para não as repetir são desafios simples e necessários. Não dá pra chamar pessoas para falarem em eventos somente por conta de seus currículos acadêmicos, às vezes quem tem doutorado e mestrado só sabe expor com slide e sabem menos de política do que quem vive na comunidade, no chão do trabalho, dentro da escola. Não existe superioridade quando a política é dinâmica em disputa de ideias.

Certamente existem muitos outros pontos para análise, mas esses são os que considero com a urgência de começar a armarmos a luta e a resistência em períodos dão duros como os que se abrirão. Não tenho esperança que tudo falado agradou a todos companheiros e companheiras da esquerda, tem muitas verdades que apesar dos ouvidos resistirem precisam ser ouvidas. É tarefa nossa não sucumbir, mas nos fortalecermos com o alcance da derrota e com a possibilidade sempre iminente da vitória, não na busca cega pela próxima eleição, como o PT acha que deve fazer, mas na busca diária da organização popular rumo a nossa emancipação.

BOLSONARO VAI TOMAR POSSE, E AGORA? BOLSONARO VAI TOMAR POSSE, E AGORA? Reviewed by Rede Idea Chek on dezembro 19, 2018 Rating: 5