CARTA DE UMA PROFESSORA DO ESTADO A RUI COSTA


REDAÇÃO



Na última semana, após anúncios de várias medidas tomadas por Rui Costa (PT) e a Assembleia Legislativa do estado, que além da privatização de empresas, retirou direitos históricos de trabalhadores baianos, uma carta de uma professora do Estado para o governador baiano circulou nas redes sociais e demonstrou o impacto negativo das medidas para os servidores públicos da Bahia, principalmente professoras e professores que foram veemente atacados pelo governador e por deputados como Zé Neto (PT), que praticamente afirmou que a classe nutria privilégios e que deveria se sacrificar por um “bem maior”.
Veja a Carta na Íntegra:

Texto destinado ao nosso excelentíssimo governador  do Estado da Bahia, senhor Rui Costa.
Senhor governador, desejo-lhe um bom dia, porém para nós trabalhadores e trabalhadoras do Estado da Bahia creio que esse desejo de termos bons dias não poderá ser consolidado, nem hoje e nem tão cedo.
Escrevo-lhe não apenas como Servidora Pública Estadual, mas também como cidadã que confiou plenamente em sua gestão e na sua competência em gerir nosso Estado. Ao ler e acompanhar o pacote de medidas que o senhor vem tomando, e vem tendo anuência dos deputados do nosso estado, a palavra que traduz o que sinto é tristeza e indignação.
Um governo que trabalha para o povo e que acredita que uma sociedade mais justa só pode ser construída oportunizando espaços para os que mais precisam não pode sangrar a carne do povo.
Sei que o estado está com sua folha onerada, entendo também que o número de servidores, principalmente, professores inativos vêm crescendo e creio que em números pode superar aqueles em atividade, porém acredito que quando precisamos enxugar algo, desonerar custos, nunca devemos priorizar retirar daqueles que têm menos e que sofrem cotidianamente para viver minimamente de forma digna.
Aumentar a alíquota da previdência de forma indistinta, reduzir o pagamento aos estabelecimentos credenciados ao Planserv, modificar interstícios para dar entrada em cursos como meio de melhorar os salários dos servidores, modificar as regras de gratificação para aqueles que buscam se qualificar em cursos de mestrado e doutorado, tudo isso é insensível, desonesto e corta na carne daqueles que mais batalham e mais precisam do apoio do estado.
Porque não pensar em reduzir privilégios de parlamentares, número e valor pago a assessores? Porque as verbas de gabinete não são mexidas?
Porque delegados na eminência de entregarem seus cargos não tiveram privilégios reduzidos, mas terão reajuste?
Em saúde e educação não podemos brincar, isso deve ser prioridade. Nós, professores lutamos arduamente, cotidianamente para fazermos o melhor dentro das possibilidades que temos, mas não temos poder de barganha, não somos respeitados, quando se pensa em cortar algo, somos os primeiros a sentir na carne.
Senhor governador, não retire o pouco que conquistamos, o cenário em que estamos vivendo é de descrença, a eleição para presidente tirou nosso chão, e está tirando direitos coletivos conquistados historicamente. Nesse cenário a sua reeleição, para nós que acreditamos em governos que ampara o povo, foi um bálsamo. Cansei de dizer: “na presidência estamos em maus lençóis, mas no nosso estado estamos bem representados”. Mas parece que me equivoquei. Ver o vice governador da Bahia em reunião com representantes do governo de Bolsonaro pedindo o fim da estabilidade do servidor público foi um golpe que me causou uma decepção inenarrável.
Passar em um concurso é doloroso. Trabalhar 40 horas e ainda  buscar outro emprego para ter um salário razoável é cansativo e ultrajante em partes, ter que levar quentinha para a escola pois pagar almoço fica caro demais e onera nosso orçamento é um exemplo de como nossa vida profissional não é de qualidade, sair  correndo de uma escola para a outra para juntar Alguns vinténs mostra o quanto somos vulneráveis, por tudo isso, e muito mais, venho como eleitora, cidadã, mãe, professora, mulher, militante, requerer que reveja suas medidas, que tire de quem mais tem e não de quem menos tem, que represente quem lhe deu o voto, e que não apunhale pelas costas de forma tão cruel quem confiou em ti.
Não precisamos de mais algozes, os que aí estão já são mais que suficientes.
Minha vontade era de poder falar-lhe cara a cara, minha decepção, meu desespero, minha tristeza; minha dor é enorme e impossível de traduzir em um texto; sabe quando queremos ouvir porque o outro está fazendo isso? É isso que queria poder ouvir da sua boca porque está nos atacando dessa forma. Mas sei que na organização política que temo, estamos em distâncias abissais para ter a possibilidade de falar-lhe o que desejo e como desejo.

Atenciosamente e indignadamente,
Juliana Araújo Santos
Professora da Rede Estadual da Bahia.
Mulher, militante e crente em que um dia o povo se levantará e alcançará a dignidade que vem sendo tirada cotidianamente.

Serrinha, 14 de dezembro de 2018.

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