NADA A ESCONDER: UM FILME, UM ECLIPSE E 7 CELULARES


*Sem Spoilers



Por Iago Gomes – Graduado em Letras (UEFS), Ativista Social e Interessado nos Impactos da Era Tecnológica.

Foto extraída da Netflix

7 amigos (4 homens e 3 mulheres) que se conhecem há mais de 30 anos resolvem se encontrar e confraternizar numa noite de eclipse lunar. Como se não bastassem a numerologia e os sentidos de um Eclipse, resolvem desafiar a lógica de uma noite comum regada a comidas e bebidas e entrar no jogo “Verdade ou desafio”, numa versão moderna onde colocam seus aparelhos celulares sob a mesa e todas as mensagens e ligações recebidas durante o tempo do encontro devem ser lidas e ouvidas por todos. Os três casais e o amigo sozinho são os personagens centrais desse filme, que em meio a superficial comédia faz uma pergunta seríssima a nós: Como reagiríamos se todas as mensagens íntimas de nossas redes fossem lidas em público?

O desencadear do filme traz à tona uma série de questionamentos e situações corriqueiras e comuns, que em nada fogem a obviedade, mas que justamente por ser tão óbvio não aprendemos a lidar ou não levamos a sério. Num mundo onde tecnologia se tornou uma companheira perfeita para os desencontros e fortaleceu as “relações pecaminosas” da humanidade, a imperfeição por trás do aparente perfeito 7 vai sendo trazida ao passo de um rápido e esperado eclipse lunar. Nada a Esconder é um filme francês, simples, sem cenas lustrosas nem dignas de Oscar ou primazias, mas que toca na necessidade, e filmes como estes merecem pelo menos uma crítica pública.

Eleições no mundo inteiro, movimentos históricos e hábitos cotidianos foram alterados a partir da evolução global da internet, que como efeito expandiu o consumo de celulares, computadores e número de contas em redes sociais e de relacionamentos (inclusive a quantidade dessas redes). Temos refletido sobre a macroestrutura dos impactos, em como tem ditado os rumos de governos, de controles de dados e das comunicações, mas onde se esconde a simplicidade microestrutural de nossas ligações com esses aparelhos? Onde mora a capacidade humana de lidar com esses novos hábitos e que faz com que cada sujeito somado individualmente coletivize o mundo virtual a partir de seus impactos intercontinentais? Mandar nudes pode ser uma fantasia nossa, mas o sexo é a ordem universal do ser humano e tenho certeza que a prática de expor nossas genitálias e nossos corpos não começou no século XXI. Quem não almoçaria em belas porcelanas gregas sob pênis, vaginas, bundas e ânus? Traição sexual num relacionamento também não é uma invenção do mundo moderno, não é? Ou pelo menos conceitos variam, entender esse tipo de traição hoje pode ser totalmente diferente de algumas décadas atrás, talvez até se torne uma fantasia ou um relacionamento aberto.

O que importa em todo esse plano cinematográfico é que guardamos segredos, porque é inconcebível expor 100% de nossa intimidade, mesmo que as redes tenham nos dado a chance de avançar, quem sabe a um patamar bélico. Descobrimos através de memes que temos formas parecidas de entrar no chuveiro, de comer feijão com arroz, de lavar pratos, etc.. Que nós compartilhamos nossas intimidades em aplicativos e mensagens in box, mesmo quando publicamente algumas pessoas, que também fazem isso, clamem à Família Tradicional e votem no candidato que a defenderá, porque, no fundo, são os personagens que morrem de medo de compartilhar suas mensagens, mas têm mais medo ainda de saber o que o outro esconde e guarda. “Sua intimidade pode até ser permissiva, contanto que fique entre 4 paredes”, não aceito “gays se beijando nas ruas”, “Sou casado com mulher, mas mantenho relações sexuais casuais com homens”. A Era Tecnológica expõe, para o bem e para o mal, para o combate às opressões e para o fortalecimento delas. É uma incógnita tecnológica em disputa real, para microestruturas e para macroestruturas.

No fim, vale assistir o filme, disponível na Netflix. Aprofundei algumas “pipocas” a mais, por necessidade lógica de não esconder mais do que um eclipse lunar pode em capacidade. Talvez o filme nem seja tão bom, mas é bom, levanta bons debates e isso é o suficiente.

NADA A ESCONDER: UM FILME, UM ECLIPSE E 7 CELULARES NADA A ESCONDER: UM FILME, UM ECLIPSE E 7 CELULARES Reviewed by Rede Idea Chek on dezembro 10, 2018 Rating: 5