NOVOS SUJEITOS POLÍTICOS


Por Roberto de Barros Silva - Biomédico, Pós-doutorado pela USP e King's College London, Fundador e ex-membro do Coletivo Abayomi e da Frente LGBT de Ribeirão Preto (SP)


O exímio filósofo Vladimir Safatle defende em sua obra, O circuito dos Afetos”, a ideia de que a política é um processo o qual não circula apenas bens, mas um espaço onde circulam-se afetos. Portanto, pensar política e fazer política encontra-se, no ensejo filosófico e sociológico, um aspecto psicanalítico. Nesse quesito, talvez esteja em Looke a principal ideia do aspecto afetivo da política. Na obra Leviatã, o autor defende uma ideia do estado ser um mal necessário e atribui o afeto do medo um ponto nevrálgico para legitimação deste e para justificativa de se modular os medos coletivos. Esse aspecto leva a conclusão de que entender quais sentimentos são afetados pelos discursos e ações; levam compreender quais políticas estimulam ou censuram determinadas subjetividades.   
Esse fenômeno, portanto, cria uma rede/circuito de afetos, como bem proposto pelo filósofo.

Seguindo-se essa premissa, percebe-se que as discussões identitárias são de suma importância, pois não se pode compreender um indivíduo em sua totalidade e coletividade sem compreender o que lhe faz um indivíduo e como este é percebido em suas relações interpessoais. Marx, já no século XIX, preconiza o sujeito como sendo reflexo de uma constante luta de classes e, portanto, estabelece um parâmetro extremamente objetivo das variáveis que forma e que constituem um sujeito. No entanto essa visão, embora correta,não é completa.  Nesse sentido, as sociedades não devem ser analisadas apenas em sua dialética materialista, mas também. Em suma: o entendimento de como as diferentes sociedades se moveram ao longo da história deve-se basear em um conjunto de variáveis, os quais identidade e classe estão em igual peso de importância e relevância.

Esse dado tem-se mostrado paradigmático no contexto político atual, os quais novos sujeitos políticos têm reivindicados com importância ímpar o direito de existir e de mobilizar as decisões no espaço do político. Não atoa, grupos vulnerabilizados tem sofrido, ao longo da história, as piores sanções e opressões. Os negros foram escravizados por causa de uma lógica econômica (os colonos brancos viam os negros não como sujeitos, mas como mercadorias para se obter lucro), mas também por uma lógica identitária o qual os brancos construíram; seja na religião, ciência, na política, enfim.... nas instituições que emergiram desse processo racista, como a que resultou da tão caracterizada ideologia do branqueamento (Brasil) ou Lei de Lynch (EUA). Da mesma forma, as LGBTs são excluídas por um processo do capital, pois para o capitalismo a norma vigente sempre foi a heteronormativa, mas igualmente por uma concepção que nos demonizou, adoentou e criminalizou os corpos e afetos. Portanto, as questões identitárias sempre foram perseguidas no espaço político. Seja a direita conservadora mais vil e alienante como uma esquerda mais ortodoxa e hermenêutica. Diante essa problemática que grupos vulnerabilizados passam, cabe a indagação: porque tanta perseguição aos grupos que buscam levantar bandeiras identitárias? Talvez esteja no contexto por trás dessa pergunta uma pista da resposta. Os indivíduos que compõem as institucionalidades não têm aceitado o aparecimento de novos sujeitos políticos. No entanto, um fenômeno que a história é pródiga em mostrar está no fato de que as sociedades se estruturam e se forma pelos laços interpessoais e as constituições de novos sujeitos nesse espaço é uma constante e não uma exceção. Portanto, a retomada de uma democracia deverá levar em consideração a existência desses novos e significativos grupos sociais.

NOVOS SUJEITOS POLÍTICOS NOVOS SUJEITOS POLÍTICOS Reviewed by Rede Idea Chek on dezembro 11, 2018 Rating: 5