POLÍTICAS ANAIS: A REVOLUÇÃO COMEÇA PELO CU

Por Raphael Tedesco - Estudante de Psicologia (UEFS) e Integrante do Grupo de Trabalho Psicologia, Sexualidades e Identidade de Gênero - CRP/03 Subsede Recôncavo




Talvez, nos últimos anos, nenhuma produção artística tenha gerado mais rebuliço na sociedade contemporânea do que a performance Macaquinhos, na qual oito artistas nus exploram seus corpos e a exposição Cu é Lindo, projeto multiartístico que denuncia um processo de cura gay. Não por acaso, ambas carregam algo de muito semelhante: o cu como protagonista. Mas afinal, porque o cu incomoda tanto?

Desde muito pequenos, uma das primeiras coisas que nos são ensinadas é de que aquilo que carregamos por entre as nádegas é exageradamente sujo, sendo o simples ato de tocá-lo algo extremamente repugnante. Se não podemos tocá-lo, dá-lo então é algo que nos causa imenso terror.

É do conhecimento de todos que Vai tomar no cu é uma expressão que se escuta da boca de muitas crianças, até mesmo as que compõe as “melhores famílias”, ainda que, ironicamente, muitas delas não saibam ao certo o que significa dar o cu.

Conforme ironiza minha amada mestra Mônica Moreira Lima em seu programa Sem Vergonha, ao comentar sobre a performance Macaquinhos, ao crescerem e tornarem-se adultos do rol dos pseudo puritanos e falsos moralistas, tais sujeitos não podem nem mesmo ouvir “sexo anal” que imediatamente ficam de cu ardido. Há ainda as famosas passivas enrustidas, mascaradas como guardiãs da moral e bons costumes, que entram, contraditoriamente, em profundo choque ao presenciar uma simples dedada.

Assim sendo, em termos de subjetivação, expressões como Vai tomar no cu/ Fez o serviço que nem o cu colocam o cu dentro de uma redoma de negatividade e forjam realidades culturais e políticas de restrição do desejo que ouse ser expresso para além da norma heterossexista e falocêntrica. Ou seja, mesmo que de forma anedótica a reprodução de expressões como essas, cria e transmite realidades e valores. (PERES; POCAHY; CARNEIRO; TEIXEIRA-FILHO, 2014)

Desde que adentramos ao mundo, aprendemos que todo mundo tem cu e, portanto, cada um deverá cuidar do seu da maneira mais adequada possível. Isso implica mantê-lo recluso, impenetrável, intocável e limpo, além de entende-lo como sujo e repugnante. O cu então é forjado como a parte mais abjeta do corpo e torna-se por excelência o lugar do insulto, humilhação e injúria. (PERES; POCAHY; CARNEIRO; TEIXEIRA-FILHO, 2014)

Assim como o cu, materialização da abjeção em nossos corpos, travestis, transexuais, bichas, moradores de ruas, velhos, prostitutas e todos aqueles que se encontram à margem são elevados à mesma categoria e a sociedade, portanto, lhes exige o mesmo tratamento. É preciso que se mantenham reclusos. São esses corpos os que Bolsonaro prometeu exterminar ao fazer “uma grande limpeza jamais vista” em nosso país.

Os teóricos dos estudos queer são quem problematizam o papel do ânus como definidor e estratégico na construção e manutenção do nosso sistema de gênero e sexualidade. Aquilo que se argumenta é que, ao contrário do que se costuma pensar, o prazer anal está longe de ser uma prática exclusivamente homossexual, mas é antes e sobretudo uma forma revolucionária de minar as categorizações sexuais. (BARRETO, 2017)

“A prática do sexo anal, seja com picas, objetos, dedos e dildos foram capturadas pela lógica binária e universal que determina desqualificação, desvalorização e toda forma de injúria que um ser humano possa receber ao ser descoberto e/ou associado com essas formas de práticas e prazeres” (PERES; POCAHY; CARNEIRO; TEIXEIRA-FILHO, 2014). Isso pode ser compreendido à luz de Preciado (2014, p. 32), ao nos provocar afirmando que “o trabalho do ânus não é destinado à reprodução nem está baseado numa relação romântica. Ele gera benefícios que não podem ser medidos dentro de uma economia heterocentrada. Pelo ânus, o sistema da representação sexo/gênero vai à merda

O cu, apesar de suas pregas, reentrâncias, alargamentos e fissuras, não possui marcas de gênero. Ele é de (e para) todos. No cu, mesmo cabendo tanta coisa, não há espaço para os binarismos e essencialismos estratégicos. O cu é, mesmo constantemente vigiado, revolução.

Por outro lado, a construção social do cu não está alheia às relações de poder. A vigilância de nossos cus, conforme denunciam Sáez e Carrascosa (2011) não é uniforme, é necessário que se considere se o cu a ser enrabado é rico ou pobre, de um negro ou branco, se é de um homem ou mulher e se esses são trans ou não-trans, se durante e após a penetração o indivíduo está honrado ou profundamente envergonhado, se no intercurso foi utilizado camisinha ou não.

São nessas variedades que poderemos identificar a polícia vigilante do cu e é também daí onde se é possível articular a política do cu. É ali, nessa rede (ou prega) onde é exercido o poder e onde se alicerça o ódio e toda sua prole: o sexismo, a homofobia e o racismo (SÁEZ; CARRASCOSA, 2011)

É preciso, portanto, que arrombemos as portas do tabu e alarguemos nossos horizontes, através da democratização do acesso ao fio terra. Se para o sistema, o cu é tão proibido, é explorando e descobrindo, de forma bastante profunda, seus prazeres e potências, é desapegando de suas pregas e consolidando um altruísmo anal que começaremos a revolução que tanto desejamos.

O cu, por mais higienizado e recluso que seja, resiste. Ele se faz lembrado todos os dias, ao expelir nossas fezes, ao se impor como órgão sexual dos dissidentes e dos pais de família. É assim também com os corpos abjetos. A limpeza do projeto de Bolsonaro, encontrará resistência. Porque na nossa revolução queer o prazer anal, assim como nossas vidas, não será somente privilégios de alguns, mas de todas e todos.


Referências

BARRETO, V.H.S. Festas de Orgia para homens: territórios de intensidade e socialidade masculina. 1ª ed. Salvador, BA; Editora Devires, 2017.
PERES, W.S; POCAHY, F.A.; CARNEIRO, N. S; TEIXEIRA-FILHO, F. S. Transconversações queer: sussurros e gemidos lusófonos Quatro cadelas mirando a(s) Psicologia(s). Revista Periódicus 1ª edição maio-outubro de 2014.
PRECIADO, B. Manifesto Contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual. São Paulo: n-1, 2014
SÁEZ, J.; CARRASCOSA, S. Por el culo. Políticas anales, Egales, 2011.





POLÍTICAS ANAIS: A REVOLUÇÃO COMEÇA PELO CU POLÍTICAS ANAIS: A REVOLUÇÃO COMEÇA PELO CU Reviewed by Rede Idea Chek on dezembro 09, 2018 Rating: 5