“EU VOU TOCAR UMA SIRIRICA E VOU GOZAR NA SUA CARA”: DEDILHANDO A CRUZADA MORAL CONTRA A MASTURBAÇÃO




Por Raphael Tedesco
Estudante de Psicologia (UEFS) 
Integrante do Grupo de Trabalho Psicologia, Sexualidades e Identidade de Gênero
CRP/03 Subsede Recôncavo.



Essa semana, navegando pelo Youtube, me deparei com um vídeo que causou grande alarde e chocou grande parte da família tradicional brasileira. De 2006, o vídeo em questão fez parte da novela Páginas da Vida, que ao final dos capítulos exibia depoimentos de pessoas comuns sobre episódios que vivenciaram.
Nelly dos Santos, na época senhora de 68 anos e babá, em frente às câmeras revelou que havia alcançado o primeiro orgasmo, apesar de casada desde os 14, aos 45 anos, ao som da música Côncavo e Convexo de Roberto Carlos. Nada muito assustador, não fosse o fato dela ter alcançado o orgasmo por meio da siririca.
Dona Nelly que em horário nobre e com maestria além de derrubar o mito da velhice assexuada e nos lembrar que o prazer está ao alcance das mãos, foi demitida e sofreu com uma enxurrada de comentários negativos e jocosos.
Devo assinalar que as categorias de gênero e geração são essenciais para uma análise desse pânico moral acionado pela fala de Dona Nelly, contudo, peço permissão para suspendê-los (por ora) e apresentar alguns movimentos históricos que estão por trás de representações tão negativas em torno da masturbação, importantes para um debate sobre sexualidade.
O combate à masturbação tem como seu pioneiro a Igreja Católica, com base em fundamentos religiosos e posteriormente teve como seu aliado a medicina e a ciência. Curiosamente, a bíblia não traz nenhuma referência direta à masturbação. Contudo, a Igreja Católica, com toda sua perspicácia, fez uso da estória de Onan, para respaldar seu movimento de combate à pratica, sendo esse o motivo pelo qual a masturbação também ficasse conhecida por onanismo.
Na bíblia encontramos o seguinte relato: “Judá tomou para seu primogênito, Er, uma mulher chamada Tamar. Mas Er não agradava ao Senhor, que o matou. Então Judá disse a Onan: ‘Vai até a mulher de teu irmão, toma-a e dá sucessão a teu irmão’. Onan, sabendo que essa posteridade não seria sua, sempre que se unia a Tamar deixava o sêmen cair no chão. O que ele fazia era mau aos olhos do Senhor, que também o matou.” (BIBLIA, Gênesis, 38, 6-10)
Como podemos perceber, aquilo que fora praticado Onan e condenado por Deus não se trata de masturbação, mas de coito interrompido. Contudo, o que permitiu a Igreja estender a maldição de Onan, fazendo com que esta recaísse sobre a masturbação, foi o fato de, assim como o coito interrompido, os sujeitos que se masturbam, gastarem sêmen sem objetivo de reprodução.
Passados alguns anos, a condenação à masturbação foi tornando-se tema de periódicos e tratados médicos. Nesse ínterim, as premissas de André Tissot (1728-1797) merecem destaque. Em uma de suas obras, a qual acredita-se ter sido lançada em torno de 1760 (1758-1760), o médico declarou ser de extrema importância tratar da masturbação não mais como desvio moral, mas como doença e desenvolveu uma teoria em que propõe que a perda de sêmen acarretaria degeneração física e mental nos sujeitos. (PEREIRA, 2014)
Tissot passou a ser considerado referência para outros autores da época e suas informações e premissas, como denunciado por Pereira (2014) em sua pesquisa com jovens evangélicos acerca das suas concepções sobre masturbação, ainda hoje são utilizadas por profissionais médicos, psicólogos e enfermeiros cristãos, que através de palestras tratam a masturbação como uma prática não-saudável, apontando-a como causadora de patologias físicas e psicológicas.
Apesar de a masturbação ser considerada pela sexologia como essencial para o bom desenvolvimento das funções sexuais – movimento que deve ser analisado de forma crítica, a partir daquilo que Foucault denuncia em A história da Sexualidade – A vontade de saber, mas assunto para um outro momento-  e as  teses sexo-terroristas de Tissot terem sido desvalidadas por completo, movimentos religiosos como o Eu Escolhi Esperar, o qual concentra grande número de seguidores, se posicionam e condenam abertamente a masturbação e o número de procura e acesso a vídeos, na plataforma do Youtube, que tem como título “Dicas para não se masturbar”, “Como vencer o vício da masturbação” chegam, cada um deles, a milhares de visualizações.
            Como a degeneração física não pode ser mais acionada como uma consequência direta da masturbação, os movimentos cristãos têm pautado suas discussões sobre o tema a partir da lógica de uma suposta degeneração moral, que nos acometeria caso nos aventurássemos nos prazeres da autossatisfação orgástica.
Tal movimento está afinado com o projeto de manutenção de uma hierarquia do desejo, no qual as relações heterossexuais maritais e reprodutivas estão sozinhas no topo da pirâmide erótica. (RUBIN, 2003)
            É interessante perceber que, mesmo aqueles que conseguiram se desprender do estigma em torno da masturbação, considerando-a uma prática respeitável e normal, ainda a consideram uma substituta inferior à relação sexual entre um par. Quantos não se assustariam ao ouvir de uma pessoa que lhe basta a masturbação? Que prefere aliviar-se tocando uma siririca ou batendo uma punheta do que deitar-se com outra pessoa? Com certeza, rapidamente, seria considerado um grande perverso e imoral.
            Agora, lanço mão das questões de gênero e geração, e questiono: será mesmo que um homem jovem ao revelar que se masturba, causa o mesmo espanto e polêmica que causou Dona Nelly ao dizer que “homem pra mim não faz falta, eu mesmo dou meu jeito”? Passados 13 anos desse relato, saberíamos lidar de forma natural caso escutássemos uma senhora que compartilhasse conosco que toda noite toca uma bela siririca?
Porque em muitos vídeos, nos quais profissionais médicos e psicólogos falam abertamente sobre os benefícios da masturbação e a incentivam, não deixam, contudo, de nos alertar sobre as consequências do vício? Afinal, a partir de quantas punhetas/dia eu posso ser considerado um viciado? Ora, se é preocupação dos profissionais alertar-nos sobre o vício, isso me leva a acreditar que ele pode ser mais comum do que imaginamos. Talvez é possivel encontra-lo a cada esquina, nas casas das melhores famílias. Mas, quantos viciados conhecemos? Quantos casos de pessoas que tiveram sua vida prejudicada porque não paravam de se masturbar, nós temos conhecimento?
Quantos permitiriam que a masturbação fosse tema da educação sexual nas escolas? Quantos consideram este um tema relevante, assim como gravidez na adolescência e transmissão de ISTs? A educação sexual pode falar dos prazeres ou a ela cabe apenas o papel de (re)criar um clima sexual negativo, fazendo ressoar em nossas mentes os riscos e consequências negativas impressas em imagens de garotas grávidas com expressões de infelicidade e de genitálias imersas de pus, sangue e infecções?
            É preciso, portanto, que nos questionemos sobre como temos lidado com o tema da sexualidade. Mais do que falar sobre é preciso que nos questionemos de que forma tem sido falado. A masturbação está adentrando as linhas da respeitabilidade, mas não sem ter sido antes capturada pela lógica normativa.
Sigamos, pautando nossas lutas, não para que algum dia o relato de Dona Nelly seja considerado normal, mas em busca de questionar a própria normalidade e toda categorização que dela surja.

Referências

BRENOT, P. Elogio da Masturbação. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1998.

PEREIRA, Patrícia Cristine. Educação sexual familiar e religiosidade nas concepções sobre masturbação de jovens evangélicos. 2014. 151 f. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Faculdade de Ciencias e Letras (Campus de Araraquara), 2014. Disponível em: <http://hdl.handle.net/11449/115803>.

RUBIN, Gayle. "Pensando sobre sexo: notas para uma teoria radical da política da sexualidade". Cadernos Pagu, Campinas: Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, n. 21, p. 1-88, 2003.





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