NÃO VAI SER 64!

Por Iago Gomes - Professor, Militante Político e Redator do Blog Idea Chek.

Imagem retirada do site  Outras Palavras.Net
Nesta terça-feira, primeiro de janeiro de 2019, Jair Messias Bolsonaro tomou posse como presidente eleito do Brasil. Com grande cobertura dos principais veículos de mídia nacionais e internacionais, a repercussão nas redes foi, como todo o processo eleitoral, extremamente polarizada. Hashtags como #ForaBolsonaro, #EleNão, #BolsonaroPresidente tomaram as redes mundiais, que também comentavam o discurso da primeira-dama, do vice Mourão e detalhes da cerimônia. Mas, em meio a comemorações de final de ano atípicas, a frase que repercutiu em legendas, storys de instagram, postagens de famosos e textos de análises políticas foi: “Bem-vindo a 64!”, alusão aos períodos de Ditadura Militar brasileira tão exaltado pelo presidente empossado e por figuras ligadas ideologicamente a ele.

Nessa coluna, minha intenção não é levantar a fé em um “bom governo” ou acalmar o medo daqueles e daquelas que temem o governo que se inicia. A perspectiva adotada não se baseia em princípios maniqueístas, mas numa tentativa de lançar mão de reflexões urgentes e necessárias para iniciarmos uma marca de disputa favorável à classe trabalhadora em um cenário de emergente conservadorismo social, político e econômico.

Aos fatos Bolsonaro foi eleito com uma agenda de “Revolução de Costumes”, o que alguns também chamam de “Revolução Cultural”. Apontando há algum tempo aspectos morais e tratando problemas políticos por um viés de problemas das relações humanas, figuras ascenderam nas mídias sociais através de discursos que iam contra avanços das relações ganhos em pelo menos nas últimas cinco décadas por movimentos como o da liberdade sexual, do pensamento crítico-reflexivo, das LGBT’s, do movimento negro universitário, etc.. Num país que há pouco mais de 130 anos vivia um regime de escravização dirigido por uma elite branca, as confusões permaneciam presentes nas principais disputas por poder, micro e macro. A elite vendeu a ideia de que “A abolição” pagou a dívida, que a restauração democrática deu conta de superar os anos de ditadura e que as manifestações de junho de 2013 não eram por mais direitos para os grupos discriminados e explorados, mas apenas uma indignação contra a corrupção do governo em vigor. Compraram? Sim! Porque nesses campos citados nem ocorreu disputa. Ganharam nos moldes alemães, de 7x1.

Mas, se o discurso inflamado e ora moderado de Bolsonaro em sua posse demonstrou algo foi que parte das promessas revolucionárias de costumes não são possíveis de concretizar, pelo menos se cumprir a Constituição e se manter relações amigáveis com os países dominantes, algo já escancarado que manterá. As transformações de mais direitos em campo democrático não é exclusivo do Brasil. No mundo inteiro a tensão e pressão para que países reduzam o belicismo contra os grupos sociais é parte da demanda humanitária, mesmo que em muitos isso não tenha tido um efeito acelerado, a pressão de grupos de baixo é grande. Bolsonaro sabe, e possivelmente aquilo que não conseguir fazer vai morrer em discursos e no figurino, ou se atreverá a culpabilizar “outros” (PT, Esquerda, Comunismo, Queiróz, etc). Mas por que ele faz tanto esse discurso? Por que sua plataforma foi construída com uma base de luta contra os “Costumes” e nunca se importou em falar de “Economia”?

Lembro do último programa do Jornal Nacional nas vésperas da eleição do segundo turno, onde no compilado recuperado de trajetória de Jair Bolsonaro, o resumo era negação do tema economia à população e muito encontrão com economistas e grandes empresários. Não à toa o nome que mais apareceu durante a disputa após o do próprio candidato era o de Paulo Guedes, ministro da economia. Articulador econômico do governo, da campanha e dos encontrões. No discurso de posse a promessa de reformas estruturais, em Janeiro, de cara, a “Reforma da Previdência” será colocada em agenda no Congresso. Cortes de verbas para o Sistema S (SENAI, SESC, etc.). E as palavras de Eunício Oliveira? Um agradecimento enfático pela força na aprovação da PEC 55, que congelou investimento em áreas públicas. Ora, tá bem óbvio que o fenômeno do “Fantochismo Presidenciável” se repetirá: o presidente não manda, obedece e faz pose pra foto! Quem dá as ordens não quer aparecer, só lucrar! A Elite econômica internacional e nacional teve as promessas vindas do presidente empossado de muito lucro, calmaria e controle da resistência, afinal “vai acabar com a militância política e o impulsionamento dela nas escolas”. A agenda a cumprir é do Banco Mundial! Pouca reflexão e muito trabalho.

Desafio o leitor a se perguntar: quais foram as promessas para o povão citadas em seu discurso? Todas falam de acabar! Acabar com os direitos humanos, com a paz, com “privilégios”, com a liberdade, acabar e acabar. Quais as promessas para a elite? Lucro, lucro, lucro. Para as elites ele fala de economia, para o povo ele fala da “revolução de costumes”.

Só que o povo não é bobo! A falta do pão na mesa, o suor excessivo, a estrutura da escola do filho e do hospital tocam mais forte do que o beijo do casal gay na novela. O cassetete dói no manifestante, mas dói também nos filhos e nas mães que moram nas periferias. Ter crediário na loja é fantástico, ir pra o SPC é praxe da classe média brasileira. Em algum momento a fantasia prometida por Bolsonaro se desfará. Por isso, o discurso de 64 pode parecer tão perto, mas tão distante. Podem tentar recorrer às forças mais repressoras, e vão com certeza, mas nessa onda até o presidente pode levar a pior. Não que uma ditadura nos mesmos modelos vá ser implantada, mas a tensão programada para conflitos de origem econômica entre a classe trabalhadora e a elite não será tão distante. Pode ser dentro dos próximos quatro anos, ou não. A tensão terá que ser amplificada, organizada e cuidadosamente pensada.

As selfies com legendas ao ano de 64 é mais uma reação ao discurso que não cumpre nenhuma função política. O que cumprirá é sairmos do medo paralisante e partir para a ação que ultrapasse o “ser comentarista em rede”. Não temos que ser espectadores, mas sujeitos internos de processos políticos. As ruas precisarão de cada corpo revoltado, de cada mente indignada. 64 precisou? Os anos seguintes precisaram? Então se for pra chamar de 64, que pelo menos tenhamos aprendido com a história aquilo que tanto nos exaltamos em relação ao outro lado nos últimos anos, afinal sabemos o que é Ditadura, temos noção do que é política no campo da ação e nossa existência conhece a opressão e a exploração de perto. Não tenha medo. Não vai ser 64!

NÃO VAI SER 64! NÃO VAI SER 64! Reviewed by Rede Idea Chek on janeiro 01, 2019 Rating: 5