O "NÃO" AO SINCRETISMO RELIGIOSO


Por Alan de Sá - Jornalista, Escritor, Roteirista e Publicitário por atuação. Já fez quase tudo nessa vida, mas o nada sempre teve um sabor especial. Gosta de mágicas baratas, malabarismo em supermercados de bairros e desobediência civil literária.


Foto da tradicional Festa da Lavagem do Bonfim em Salvador, retirada do site Informe Baiano

Não existe cultura que não se valha de ideia comuns. É assim que as coisas surgem. Fatos comuns acontecem em eras diferentes e com povos diferentes. 

Pra o olhar menos atento, das duas uma: a) ou todas as religiões eram uma só e alguma coisa causou uma ruptura brutal na crença comum (uma síndrome de Torre de Babel, talvez): b) uma mitologia foi plagiada por outra, que foi por outra e assim sucessivamente. 

Sinto informar, mas ambas estão incorretas. 

Ameríndios, hindus, judeus, gregos e outros povos relatam sobre um possível dilúvio. E isso não porque, em todos esses casos, houve uma única chuva em todos estes lugares ao mesmo tempo, mas sim porque chuvas fortes e alagamentos são comuns. Simplesmente acontecem. 

No balaio das religiões e mitologias mais comuns, a que parece mais dissonante de todas é o candomblé. Que é uma das mais antigas do mundo. 

Entendamos, aqui, algumas coisas: i) o candomblé cultuado no Brasil não é o candomblé original; ii) os orixás cultuados na África não são os mesmos cultuados no Brasil; iii)  o candomblé sofreu muito mais influência externa do que outras religiões. 

O sincretismo explica melhor tudo isso.

Palavra originada do grego, sugkrētismós, sincretismo possui significados semelhantes em vários segmentos de nossa língua. Para este texto, apenas não adotarei, para fim de análise, o linguístico e o analógico. Sendo assim, ficamos com 2 definidores: 

1. RELIGIÃO

fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, com reinterpretação de seus elementos.

2. FILOSOFIA

síntese, razoavelmente equilibrada, de elementos díspares, originários de diferentes visões do mundo ou de doutrinas filosóficas distintas.

"o s. da escola filosófica de Alexandria"

Visto isso, é possível entender que sincretizar é mesclar. Fundir culturas, ideias e conceitos. 

Por muito tempo foi esta fusão quem perpetuou a sobrevivência do candomblé em território nacional. Porém, sustentar o sincretismo na religião de matriz africana mais representativa do nosso país é um assassinato cultural.

O sincretismo no Candomblé, junto ao Cristianismo, é uma via de mão única. Enquanto abiãs, yaôs, ogãs, iakekerês, babalorixás e ialorixás consideram Santa Bárbara como Iansã, São Sebastião como Oxóssi e São Lázaro como Obaluaê, do lado de lá, os orixás são demonizados. Os símbolos de fé, as representações do candomblé e as expressões religiosas passam por um processo constante de demonização cristã. E não só por parte dos protestantes. 

Há integrações pacíficas sim. Como na Festa de Senhor do Bonfim, na festa a São Jorge, o cortejo a Santa Bárbara e na de Nossa Senhora dos Navegantes. 

Porém, perceba: todos estes santos são brancos. E a única coisa que os remete à religião afrobrasileira é uma ligação simbólica criada em um momento de extrema necessidade de resistência da cultura preta. 

Porém, não faz qualquer sentido manter, nos dias atuais, o discurso sincrético. Porque em nenhum estágio dos significados de "sincretismo" há qualquer sentido para a existência do mesmo entre um deus cristão judaico e deuses do leste e centro africanos.

A reinterpretação dos símbolos sincretizados, que marca o significado religioso da palavra, só seria benéfica se esta fosse uma via de mão dupla em que o candomblé também fosse beneficiado. Caso a CNBB, a alta cúpula católica brasileira ou até mesmo o Vaticano reconhecesse o candomblé como prática cristã, e passasse a cultural os santos católicos como orixás, em que os ilês usufruíssem dos mesmos benefícios estatais das igrejas haveria uma vantagem em sustentar o sincretismo. Mas não é tão difícil imaginar que isto nunca ocorrerá. Por motivos óbvios.

De maneira filosófica, há a necessidade da síntese razoavelmente equilibrada de elementos diferentes de culturas diferentes. Os santos católicos são humanos que, em algum momento da vida fizeram algum gesto que os aproximou da maximização da fé. Com milagres reconhecidos pela igreja e culto autorizado. Já os orixás são deuses que projetam elementos da natureza e sentimentos humanos. Porém, ainda são figuras divinas, não semi. Não há equivalência. 

Sustentar o discurso sincrético somente torna mais branco e menos impessoal a maior prova de resistência histórica do povo africano no Brasil. Deslegitima os orixás, os ritos e as tradições das nações. Um dia, sim, foi importante. E isso não há de se negar. Hoje, porém, deve ser esquecido. Se quisermos avançar na resistência, precisamos encarar o sincretismo não como elemento de beleza religiosa, mas como o que realmente é: um assassinato cultural.


O "NÃO" AO SINCRETISMO RELIGIOSO O "NÃO" AO SINCRETISMO RELIGIOSO Reviewed by Rede Idea Chek on janeiro 09, 2019 Rating: 5