TAREFAS PARA O ENEGRECIMENTO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS: O PRIMEIRO PASSO PARA A MASSIFICAÇÃO DAS IDEIAS

Por Iago Gomes - Professor, Militante Político e Redator do Blog Idea Chek.

Imagem dos Panteras Negras retirada do site ceert.org
Esse texto foi publicado originalmente em Abril de 2018 no Medium de Iago, e republicado nesse Blog visto que o debate se mantém atual e necessário.
Os debates raciais no Brasil chegaram a uma necessidade sistêmica e conjuntural de falar dos altos índices de encarceramento em massa. O país possui hoje a terceira maior população carcerária do mundo e com o crescimento dos índices de desemprego e subempregos, o povo negro ocupa postos de trabalhos cada vez mais precários e é afetado diretamente pelas pioras nas políticas públicas e cortes de direitos. Mas não apenas essa manifestação do racismo estrutural tem sido destaque em debates acadêmicos, na verdade esse debate vem sendo colocado ainda muito pouco diante dos impactos reais que ele significa. Outro tema que vem sendo colocado com importância por ativistas negros é a noção de Epistemicídio, conceito desenvolvido modernamente para se referir a estruturação de um conhecimento branco, ocidental, negador, subalternizador e excludente da produção de conhecimento fora desse eixo. Qual a relação estabelecida entre as diversas formas de racismo estrutural, que são partes interligadas de um todo? Como o Epistemicídio se desenvolve também a partir da negação da negritude como agente formulador de conhecimento e ainda se sustenta desse argumento para legitimar estruturas sócio-políticas? Esse texto é uma tentativa de avançar em um debate que seja teórico em essência, mas que se dê como reflexão ao conjunto de movimentos sociais e políticos para avançar na organização da negritude, e logo serem capazes de se tornarem de massas.

Escrevo esse texto em um momento onde a relação material do desemprego interfere de forma pesada em meu cotidiano, mesmo graduado em universidade pública me incluo dentro dos mais de 12 milhões de desempregados no país. Tenho convicção que essa situação tem relação com o racismo estrutural, inegável o aspecto racial de maior parte de trabalhadores informais, das vendedoras que aumentaram consideravelmente dentro dos campus universitários, da lista de desempregados que preenchem as filas intermináveis de buscas de empregos. Como graduando também de Filosofia, ouvi várias vezes professoras e professores negros (raridade no curso de Filosofia) em palestras repetindo várias e várias vezes que a Filosofia não surgiu na Grécia, pois isso significa negar toda a estruturação do conhecimento do Oriente e, portanto, é uma posição eurocêntrica. Ouvi outros questionamentos de meus alunos de porquê as mulheres não foram formuladoras filosóficas na antiguidade, ou porque não temos textos escritos no Brasil colônia pelos “escravos”. Todas essas perguntas guardam uma relação intrínseca com a forma de estruturação de suas sociedades e não é anacrônico tentar respondê-las, rota de fuga que muitos acadêmicos buscam para escapar da tormenta que é questionar as influências de fatores sistêmicos de gênero e raça sob a produção do conhecimento no passado e logo desencadear um questionar no presente.
Na Grécia antiga, as mulheres, assim como estrangeiros, escravos e crianças não eram considerados cidadãos, assim não podiam participar da vida pública e política. A relação com o trabalho assalariado só se dava para aquelas muito pobres que não tinham um tutor homem, mesmo que em algumas cidades-estados as mulheres pudessem ocupar papéis como de sacerdotisa, a estrutura patriarcal impossibilitava mulheres de ocuparem papéis que se relacionavam com a produção de conhecimento. Diferentes de Platão, Aristóteles, dos pré-socráticos, dos sofistas, entre muitos outros que construíram seus pensamentos filosóficos municiados e legitimados por uma estrutura que lhe dava suporte, as mulheres foram impossibilitadas de ocuparem esse território porque as condições objetivas não lhe permitiram. Não é anacrônico se perguntar como seria a filosofia desenvolvida por sujeitos que ocupavam um outro lugar social, o problema é que é uma pergunta que fica apenas na conspiração.
No Brasil colônia, a condição do povo negro já está exposta pela história e é impossível escondê-la. Escravizados, arrancados de territórios que em maioria possuíam uma cultura oral, com línguas distintas, culturas distintas, o povo negro vivia em condições de superexploração de mão de obra. Formularam política, se organizaram, mas não dá para colocarmos a sua forma de produção como hegemônica. O conhecimento que chegou até nós via livros didáticos e Academia é o produzido de forma hegemônica pela branquitude e mesmo aqueles negros que conseguiram romper barreiras ao longo da história não tinha um modelo inspirador para desenvolver algo diferente, exemplo de Machado de Assis, o maior escritor literário do Brasil, foi embranquecido, inclusive em aspectos físicos. As diversas formas de organizações negras durante e pós-escravidão eram formas de municiar outras formas de conhecimento. Os jornais, as escolas de samba, os quilombos eram exemplos de atuação de uma política de resistência. Cumpriam papel de alfabetização, defesa pessoal, solidariedade, discussão de táticas de enfrentamento ao sistema. O negro brasileiro sempre foi um organizador como afirma Clóvis Moura:

“O negro brasileiro sempre foi um organizador. Durante o período no qual perdurou o regime escravista, e, posteriormente, quando se iniciou — após a Abolição — o seu processo de marginalização, ele se manteve organizado, com organizações frágeis e um tanto desarticuladas, mas sempre constantes: quilombos, confrarias religiosas, irmandades, cantos na Bahia, grupos religiosos como o candomblé, terreiros de xangô e mesmo da umbanda, mais recentemente” (Moura, Clóvis, p.143, Organizações Negras)
O que não podemos confundir são as formas de organização negra com as formas de organização desenvolvidas ao longo da modernidade a partir do Marxismo. Os movimentos sociais e políticos forjados a partir da interferência filosófica marxista no concreto se basearam em toda uma epistemologia eurocêntrica, não por isso deve ser descartada, mas ao contrário, são de grande relevância e importância na luta pela emancipação humana, afinal os conceitos introduzidos e aprofundados por Karl Marx são concretos e mais atuais que nunca. O que quero colocar é que não são suficientes em si mesmos. Não podemos esgotar os métodos de organização e táticas isoladamente ao marxismo, isso seria inegável, do ponto de vista geográfico e histórico, e resultaria em um epistemicídio na produção racial anterior ao próprio Marx, afinal já existia luta de classes mesmo antes do marxismo teorizá-la. Sempre existiu luta de classes. A organização das favelas através de lideranças negras por volta da década de 60, por exemplo, tinha uma organização muito parecida com as organizações de quilombos. Numeração de casas, solidariedade entre os moradores, divisão de tarefas, criação de meios de subsistência autônoma, inclusive a figura de lideranças, como Pelé, vindo da Bahia em 1961 e líder do favelamento de São Bernardo, São Paulo.
O que quero expor nesse texto curto e pouco aprofundado não é uma confrontação entre os métodos marxistas utilizados por movimentos sociais e políticos modernos com os movimentos negros de outrora, mas uma necessidade dialética entre as partes para assim questionarmos a não presença constante de líderes negros nos movimentos e partidos e avançarmos na formulação de possibilidades políticas de massificação dos movimentos e, portanto, de seu enegrecimento.
"Em tempos complicados, 130 anos após uma Abolição que não nos aboliu, execução de grandes lideranças políticas, entre tais a vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, Marielle Franco, de confusão no seio da esquerda em torno da leitura do Lulopetismo, sentimos como se a esquerda política e a luta social esteja perdida, sem caminhos. Há uma distância enorme entre setores da esquerda e a massa popular, que por sua vez tem encontrado como possibilidade figuras conservadoras como Bolsonaro ou de apaziguamento da luta dos de baixo, como Ciro Gomes e Marina Silva. A ausência de interferência de massas da esquerda revolucionária tem grandes obstáculos, mas gostaria de destacar um em específico, já introduzido: ser de massas no Brasil significa ser negra, ter em seu interior pessoas negras organizadas, formular política negra, compreender como o racismo estrutural funciona e se intensifica com a crise econômica e política."
A execução política de Marielle é uma descrição desse momento. Marielle é mulher, negra e favelada. O tripé que move a estrutura sócio-política no Brasil de gênero, raça e classe vive em Marielle. Para além disso, ela ousou gritar para ser ouvida a partir desse tripé. As mulheres negras relegadas ao ostracismo na história, o de cuidar de afazeres domésticos e sofrer as diversas violências, eram excluídas da produção de conhecimento e formulação política. Viviam em condições piores que as mulheres da Antiga Grécia. As Carolinas de Jesus foram jogadas em diversos quartos de despejos. Marielle ousou, foi grande, enorme, mas foi executada sem nenhuma segurança e direito a auto-defesa. Quem matou Marielle foi o sistema, mas o que o partido de Marielle, os movimentos sociais e a esquerda como um todo fizeram por Marielle? O que eles fazem por seus formuladores políticos negros, tão raros nas suas estruturas? Se para a esquerda é muito difícil desenvolver uma perspectiva política contra hegemônica, para a esquerda negra isso é ainda mais difícil. Maior parte de nós está encarcerada como Rafael Braga, foi arrastada como Cláudia, é torturado como Amarildo, silenciadas como Marielle Franco e vivem em subempregos assim como ausência total de emprego como Carolina de Jesus. Para romper as fronteiras sistêmicas, precisamos ser maiores do que já somos. O epistemicídio histórico toma como base as condições materiais de nossa existência, se aproveita disso, ainda hoje, e é parte do racismo estrutural. Não se trata somente de termos candidaturas negras como foi Minervino de Oliveira do PCB ou Vera do PSTU, mas de quanto isso pode avançar num debate racial dentro da esquerda, da formulação política, porque se à esquerda branca é dada a chance de produção contra hegemônica, a nós (a negritude) ainda estamos fazendo produção contra hegemônica da própria contra hegemonia.

Quantos de vocês já leram Abdias do Nascimento, Clóvis Moura, Lélia Gonzales, Sueli Carneiro, Lívia Natália, Conceição Evaristo, Angela Davis, Marielle Franco? Quantas direções negras têm a sua organização e partido? Quantas formulações políticas saem mensais na revista ou jornal de sua organização? Vocês têm responsabilidade com essas respostas, mas não só, as respostas vão ser encontradas na estrutura básica destinada a esses corpos.
Existe uma dificuldade de movimentos sulistas, por exemplo, compreender as formas e ritmos de militância do Nordeste. Ou das militâncias de classe média branca compreenderem a forma de militância na favela. Talvez seja por isso que a esquerda não deu atenção nenhuma aos cinco jovens de Maricá assassinados por milícia no Rio de Janeiro algumas semanas atrás e que foram vítimas do racismo territorial que persegue àqueles que ousam disputar com cultura e debate espaços de controle direto e indireto do Estado. São métodos diferentes, mas uma necessidade urgente e aberta: uma síntese que permita a unidade de um movimento que não seja apenas nacional sem abrir mão de seus aspectos regionais, mas que seja internacional sem abrir mão de seus aspectos nacionais.
Não quero que me acusem de ir contra a tentativa de organização e a favor do autonomismo nos movimentos negros, mas pelo contrário que entendam que aqui está um esforço raro de apontar possibilidades de reflexão e transformação interna das organizações de esquerda, se intensionam serem de massas. Deixo como formulações pouco desenvolvidas ainda por mim no campo dialético possibilidades de pauta como o fim dos antecedentes criminais, organizações de trabalhadores informais e de grupos de desempregados acompanhados por listas de cadastros, debates e oferecimento de cursos profissionalizantes. Mas aponto também para medidas internas às organizações: que estabeleçam critérios como o mínimo de 50% na distribuição de funções em mandatos e outras tarefas de direção e organização, afinal não basta discutirmos cotas para fora sem pensar que as organizações de esquerda possuem funcionamentos que repetem a estrutura.
Em tempos onde a esquerda revolucionária tem perdido espaço para a conciliação de classe e o reformismo, principalmente entre a massa popular, é preciso revermos métodos, aprofundar formulações que tenham como alvo a disputa de consciência das massas, logo a organização do povo negro, que está morrendo, sendo vítima das piores contradições da crise e sendo encarcerada, não permitindo que as organizações continuem sendo Esquerdas Meritocráticas. Sem adequarmos a estrutura de nossas organizações àquilo que foram os quilombos, às organizações religiosas, à imprensa negra que fizeram grandes batalhas no seio da escravidão e após o seu fim, não seremos capazes do que nos propomos a ser, afinal 130 anos depois somos nós, ainda, o alvo predileto do Estado.



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