'A MINHA CASA FOI O LUGAR MAIS TÓXICO QUE FREQUENTEI'

Imagem: Unsplash/Reprodução
Vai fazer 6 anos desde que assumi para mim mesmo a minha sexualidade, mesmo tendo plena ciência desde a minha infância de que a orientação sexual que estava sendo desenvolvida através dos meus sentimentos não seria a que o ambiente que nasci me fazia acreditar - perguntas como 'e as namoradinhas?' eram constantes, mesmo tendo acabado de entrar na escola nova, apesar desse fato não ser tão relevante dentro das circunstâncias. E todo o momento fui lido como heterossexual, qualquer comportamento fora da heteronormatividade era reprimido no minuto instante, assim como maneira de falar, agir, sentar, beber, comer, interagir ou simplesmente me entreter com outras pessoas, ou não. Talvez eu não tenha me sentido reprimido por ter sido uma criança completamente alegre, inocente e apaixonada por tudo e todos, essa ingenuidade me impediu de enxergar a maldade, o preconceito e a ignorância que estava sendo destilada contra mim. 

Aos 10 anos tive a minha primeira namoradinha de escola, mas não foi por decisão própria. Me sentia pressionado por chegar em roda de parentes e receber toda essa pressão de que precisava namorar alguém - e foi desse comportamento que percebi o quanto a sexualidade estava sendo imposta. Nessa mesma idade tive um contato muito próximo com a dança, e isso nunca foi um problema dentro de casa (pelo menos isso), mas a informação tinha que ser mantida dentro de casa, eu não podia ou não me sentia confortável o suficiente para poder falar sobre com outros parentes e amigos, simplesmente me vi pressionado a guardar os pequenos prazeres da minha vida. Aos 11, falei sobre a minha sexualidade e o que sentia para amigos próximos e como todo espaço heteronormativo, me vi em uma situação delicada mas logo consegui contornar. Sempre fui muito maduro para a minha idade, até os meus parentes me liam desta maneira, exceto quando se tratou da minha sexualidade.

Alguns meses depois falei sobre para um familiar próximo, e foi quando dei a minha primeira crise de ansiedade. Foi o ponto inicial de tudo que poderia vir logo em seguida, apesar de esperar algo ruim, o momento foi marcado por muitas lágrimas e sorrisos. Perto dos meus 12 anos, dei um passo para ler sobre como a sociedade lida com a comunidade LGBT+, principalmente jovens. Passei a ler também sobre psicologia, identifiquei meus sinais de crise de ansiedade generalizada. Passei a ler sobre as maneiras de opressão, e percebi que o amor que eu acreditava receber estava muito longe de ser verdadeiro.

Nessa mesma época conheci uma psicologa que dedicava uma parte em especial sobre famílias narcisistasaté hoje é possível encontrar seus textos no ar. E em meio à leitura de tantos artigos, pesquisas e estudos, descobri que na verdade a minha família mantém um ciclo vicioso, onde há um padrão estabelecido para que todos se enquadrem aos seus ideias, e não as suas personalidades próprias. Seja quaisquer o individuo, a sua cor, orientação - e até coisas mais superficiais como conquistas, dores e frustrações, todo esse conjunto é diminuído e menosprezado dentro do ambiente familiar para que se torne um deles, passando esse vício de geração para geração. Felizmente, algumas ovelhas negras conseguem se safar, mas com um peso emocional e psicológico muito grande. E o mesmo ódio e preconceito é jogado uns contra os outros, aqueles que se submetem ao sistema estabelecido. Não me restam dúvidas que a minha família cria toda a situação ilusória para viver dentro de uma bolha que não machuque os próprios egos, enquanto aponta e julga o outro.

A minha casa foi o lugar mais tóxico que frequentei. Ao mesmo momento que me oferecem acolhimento, cobram um comportamento que não é o que me agrada, me oferecem uma especie de bomba para que eu me autodestrua e reconstrua uma nova personalidade baseado nos ideais que eles querem, desejam e expectam sobre mim, ou sobre outras pessoas - indiretamente ela está sendo julgada, mesmo sem saber ou nunca receber essa opinião.

E mesmo não sendo direcionado à mim a maioria das maneiras de opressão, a minha crise de ansiedade sempre queima quando ouço algo, mesmo tendo total convicção de que aquilo não me define. As maneiras de reprimir alguém vai desde comentários zombando o corpo de alguém, ou a maneira de agir e se vestir, até dando um novo significado à outras pautas como o racismo (dando opiniões racistas), gordofobia (zombando tudo que não for magro, num padrão de modelos) e querendo limitar tudo e todos, levando todos os preconceitos consigo. minha família acredita que por tolerar uma orientação sexual, automaticamente, possuem o direito de falar o que quer e quando quiser. E todas as minhas tentativas de alertar sobre essa falta de privilégio que acreditam cegamente possuir, e todas as tentativas que sejam feitas por mim será reprimida de todas as maneiras usando o poder que acreditam ter sobre mim.

Infelizmente, estou sendo a vítima da vez dentro desse ciclo. 
'A MINHA CASA FOI O LUGAR MAIS TÓXICO QUE FREQUENTEI' 'A MINHA CASA FOI O LUGAR MAIS TÓXICO QUE FREQUENTEI' Reviewed by Deivyson Luan on fevereiro 09, 2019 Rating: 5