A PSICOLOGIA DAS MASSAS: DA LIDERENÇA DE LULA AO BOLSONARO

Por Marcelo Vinicius Miranda Barros
Graduação em Psicologia (UEFS)
Mestrando em Filosofia (UFBA)




INTRODUÇÃO
Antes de colocarmos a nossa leitura a respeito da política vigente no Brasil, precisamos nos situar em uma obra essencial para este texto, a saber, “Psicologia das massas e análise do eu” (1921), do pai da psicanálise Sigmund Freud, que é um dos trabalhos que coloca a psicanálise como uma leitura possível a respeito do social, ou melhor, dos laços sociais. Partindo, dentre outros, de pensamentos como o do psicólogo social e sociólogo Le Bon, Freud coloca a sua contribuição a respeito dos grupos, das massas, considerando no social os aspectos individuais e vice-versa.
Nessa obra, Freud mantém o sujeito psicológico nas massas. Isso, para nosso entender, supõe um afastamento de que a massa age de uma forma “irracional”. Parece, então, que o conceito de massa tem um sentido negativo, se considerarmos os autores estudados por Freud em sua obra, como Le Bon. As explicações dadas por Freud, segundo o ponto de vista de Le Bon, remetem à massa a ideia de que ela é sempre um totalitarismo, manipulação, irracionalidade, perda da autonomia, uma espécie de grau maior de hipnose etc. (ADORNO; HORKHEIMER, 1973).
Contudo, segundo os filósofos e os sociólogos Adorno e Horkheimer, essa visão sobre as massas podem desqualificar movimentos sociais, mobilizações de proletariados, dentre outros movimentos presentes na sociedade. Essa visão de massa irracional parece bem presente em Le Bon, este foi analisado e criticado por Freud (ADORNO; HORKHEIMER, 1973).
Então, para Adorno e Horkheimer, foi Freud que produziu um trabalho interessante a respeito da psicologia das massas. Se a massa é entendida como indivíduos ligados libidinalmente (grosso modo: de acordo com Freud, a libido é a força motriz de todo o comportamento humano) e que os seus impulsos instintivos inconscientes vem à tona, a identificação com o líder da massa (ou com o pai simbólico: em linhas gerais, este é sustentado por um interdito que tem força de lei) existe em decorrência da situação vivenciada na fase do Complexo de Édipo[1]. A massa que pode ter um líder ou uma ideia que o conduza, transfere essa situação edipiana para um líder real ou imaginário (ADORNO; HORKHEIMER, 1973).
Dentre outros, Freud vai usar a religião e o exército como exemplos. Na religião o tal Pai é Cristo, um líder que permite a coesão de certos grupos. No exército, o capitão, como o general, é o Pai de sua companhia (FREUD, 2011). Então em ambos os grupos – exército e religião –, tem um fator libidinal que, na verdade, se estende para vários tipos de grupos, inclusive para os grupos de partidos políticos.
Além disso, em Freud, o sujeito pode participar de diferentes massas, como aquela que representa seu status social, sua comunidade, sua cidadania e até sua comunidade religiosa. O sujeito não é preso a um líder, mas se permite participar de distintas massas (ADORNO; HORKHEIMER, 1973).
Outro ponto também relevante, posto por Adorno e Horkheimer, é que o líder ou a ideologia não surge à margem das massas, ou melhor, não surge à margem da sociedade, pelo contrário, ambos surgem a partir da sociedade. E isso traz um uma observação importante: “o triunfo ou o fracasso do demagogo não depende apenas da técnica de domínio sobre as massas, mas também da possibilidade e capacidade para integrar a massa aos objetivos do mais forte” (ADORNO; HORKHEIMER, 1973, p. 86).
Em parte, valendo-se ainda do seu conceito de Indústria Cultural[2], Adorno vai considerar que o líder não deve se valer somente da comunicação em massa (como TV, Rádio, Jornais e, considerando o nosso tempo, a Internet), já que isso não garante o domínio sobre as massas, pois mostramos que tal líder surge da massa, e não a margem desta. Assim, se o líder, via comunicação de massa, produz um resultado esperado, este só é possível porque já existe uma predisposição das pessoas em questão que integram a massa para uma submissão ideológica (ADORNO; HORKHEIMER, 1973).
Parece-nos, então, que o líder visto em Freud é realmente uma projeção – uma “fantasia”, “ideal” ou “desejo” –, uma transferência libidinal dos sujeitos ao seu objeto desejado. O líder, assim, precisa ter algo em comum, precisa de característica que permita a massa se identificar com ele. A massa não é um mero rebanho passivo ou irracional como visto em Le Bom, segundo Freud (ADORNO; HORKHEIMER, 1973).
Destarte, de forma geral, a formação do grupo tem como condição o objeto que “substitui” o seu ideal, com intuito de realizá-lo objetivamente e não apenas subjetivamente, só que, além disso, existe a identificação entre sujeitos no mesmo grupo. Essa identificação é possível, porque todos os outros de tal grupo possuem, em certo grau, a mesma relação com o objeto, este pode ser um líder ou uma ideologia. Com outras palavras,
o grupo multiplica este processo; coincide com a hipnose na natureza dos instintos que o mantêm e na substituição do ideal do Eu pelo objeto, mas junta a isso a identificação com outros indivíduos, que originalmente foi tornada possível talvez pela mesma relação com o objeto (FREUD, 2011, p. 87).
A PSICOLOGIA DAS MASSAS NO BRASIL ATUAL           E O MOVIMENTO SOCIAL
Ao utilizarmos Adorno e Horkheimer, já nos encaminhamos para este tópico, pois se trata de dois pensadores atuais que analisaram Freud como um autor também atual, isto é, considerando o conceito de Indústria Cultural e de Comunicação em massa – tecidos pelo pensamento adorniano –, a análise dessas tecnologias como ferramentas de manipulação de massa por parte de líderes, outrora entendidas como o fator mais decisivo da alienação social, sofre uma mudança de perspectiva ao se ter contato com a literatura freudiana, colocando também no centro dessa questão a própria população que se mostra alienada ou submetida a uma ideologia que ela mesma é igualmente contribuinte, mesmo que inconsciente (ADORNO; HORKHEIMER, 1973).
Atualmente no Brasil vimos uma polarização política centrada principalmente nas figuras do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do atual presidente Jair Bolsonaro. Sem nos prendermos tanto a julgamentos morais, entendemos que a ideologia de Lula – com o seu apelo popular –, e a ideologia de Bolsonaro – com seu apelo popular e de extrema direita neo-liberal –, não ganharam espaços na nossa política de 2018 por acaso. Ambos os líderes políticos estão nesse patamar porque, de alguma forma, foram criados pela própria sociedade, ou seja, os “bolsonarianos” e os “lulistas” não são meros efeitos de seus líderes, ao contrário, estes são criações no bojo da sociedade e refletem esta de alguma forma, como bem mostra Adorno e Horkheimer via ao pensamento de Freud (ADORNO; HORKHEIMER, 1973).
O contexto atual que envolve questões econômicas, morais, políticas de todas as ordens (ou, como diz Foucault, a existência de relação de poder), são construídas na e pela sociedade. Bolsonaro, por exemplo, jamais foi um sujeito que sozinho começou a se construir e a criar seus seguidores do nada, ex nihilo. A ideia dele de ser presidente não surgiu fora de um contexto social. Na verdade é esse contexto que lhe dá condição para ele ser o que é hoje. Se olharmos o seu passado em 2014, com mais de 464 mil votos, Jair Bolsonaro (PP) foi o deputado federal com maior número de votos no Estado do Rio de Janeiro. Ele está na Câmara Federal há mais de seis mandatos consecutivos, ou seja, ocupa há mais de 24 anos a função. Isso mostra a disposição de uma parte da sociedade a seu favor[3].
Vale também ressaltar a visão que os eleitores têm de Bolsonaro: aos olhos de muitos de seus seguidores, ele é o salvador da pátria, o mito, o pai, o único homem capaz de pôr ordem no país[4]. Isso reflete evidentemente o que Adorno e Horkheimer disseram a respeito da transferência edipiana ao líder, no caso, ao líder político. Com outras palavras, parafraseando Freud, tal líder “é um substituto paterno para eles” (FREUD, 2011, p. 36). Esse exemplo também se estende ao ex-presidente Lula, este do mesmo modo existe devido a uma massa que o coloca como um Pai simbólico.
Esse entendimento é de grande importância para os movimentos sociais. Mas por quê? Entendendo que o líder surge tendo como condição a massa, logo compreendemos que o poder não se resume ao líder – como, no caso, a um presidente –, pois se faz necessário ali a relação entre o líder e seus seguidores, até porque um não existe sem o outro. Trata-se de uma mútua pertinência.
Daí os movimentos sociais podem ser atuante nessa relação de poder, buscando transformar o status quo. Com outras palavras, o poder funciona e se exerce em rede. Nessa rede os sujeitos não só o mantém, mas também estão sempre em posição de exercer esse poder e de sofrer sua ação. Apesar de premissas diferentes da de Freud, o filósofo Foucault vai dizer que os indivíduos nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Daí que a sociedade em movimento tem potencial de mudança para com o modelo social vigente e que, no nosso caso, não se resumem somente às urnas eleitorais.
Outro ponto importante que nos parece dialógico com Freud, é o entendimento freudiano de que um líder, por exemplo, pode minar o poder que ele acredita ter, se caso o tal líder não corresponda com os interesses libidinais da massa ou do grupo (ADORNO; HORKHEIMER, 1973). Isso nos mostra a frustração que um povo pode ter em relação ao um presidente e até mesmo ao um modelo do modo de produção.
Esse suposto poder dado ao líder, ou ao presidente, pode ser manifestado pelo discurso deste. Geralmente – mas não somente – é pelo discurso do líder que a massa pode ou não se identificar com ele. Portanto, considerando isso pela perspectiva foucaultiana, “o discurso veicula e produz poder; reforça-o, mas também o mina, expõe, debilita e permite barrá-lo” (FOUCAULT, 1988, p.96).
Considerando igualmente a perspectiva de Freud – que é o nosso foco principal aqui –, o processo de identificação com o líder, por parte da massa, é necessário para que o líder seja considerado como tal, caso contrário, ele perde o investimento libidinal que recebe, perdendo, assim, o seu posto de líder. Por exemplo, se o discurso do líder manifestasse somente um poder repressivo, ele não se sustentaria por muito tempo, já que a massa precisaria de um objeto para que pudesse realizar a sua transferência, num processo de identificação (FREUD, 2011).
Assim é que está a questão dos políticos citados aqui. Lula com a esperança de melhorar a vida dos menos favorecidos e, ao mesmo tempo, não realizou uma reforma política de base para que exista uma melhoria mais verdadeira para o povo e nem o trabalho da consciência política para com a sociedade; por outro lado, Bolsonaro com a expectativa de acabar com a corrupção e, ao mesmo tempo, reside uma das maiores ameaças aos sistemas de proteção ambiental existentes no país (como o caso do ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro que é réu em ação ambiental, por exemplo).
É dessa forma que esses líderes se mantêm no poder, pois se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse outra coisa a não ser dizer “não”, poderíamos acreditar que seria obedecido? Foucault vai dizer que o que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz “não”, “mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer” (FOUCAULT, 1979, p.8). Ou seja, se o líder é forte, é porque produz efeitos positivos a nível do desejo (FOUCAULT, 1979).
Em suma, numa linguagem quase freudiana, o que podemos observar é que a libido se faz necessária em toda a massa, além de que o líder precisa “sustentar” tal libido para que o grupo se mantenha coeso. A relação do líder com a massa ainda pode ser interpretada como relação de poder – no sentido foucaultiano –, isto é, que o poder não está nas mãos de um líder, mas sim que o poder se “dilui” em todos os envolvidos que, no nosso caso, são os membros de uma massa e o próprio líder destes, e, portanto, tais membros também fazem história. Porque se o poder, como apreendemos, não é algo natural ou já dado, e sim uma prática social, então, ele é constituído historicamente. Portanto, a mudança que se espera não se resume a projeção ao um líder político, por exemplo, mas, além disso, depende da população como movimento social. É do povo que a mudança deve ser feita com ações que vão além das urnas eleitorais.
REFERÊNCIAS
ADORNO, T; HORKHEIMER, M. Temas básicos da sociologia. São Paulo: Edusp/Cultrix, 1973.
FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
______. A vontade de saber. In: História da Sexualidade I. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
FREUD, S. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923). Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
LAPLANCHE, J; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1992.



[1]Conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança sente em relação aos pais. Sob a sua forma dita positiva, o complexo apresenta-se como na história de Édipo-Rei: desejo da morte do rival que é a personagem do mesmo sexo e desejo sexual pela personagem do sexo oposto. Sob a sua forma negativa, apresenta-se de modo inverso: amor pelo progenitor do mesmo sexo e ódio ciumento ao progenitor do sexo oposto. Na realidade, essas duas formas encontram-se em graus diversos na chamada forma completa do complexo de Édipo. Segundo Freud, o apogeu do complexo de Édipo é vivido entre os três e os cinco anos, durante a fase fálica; o seu declínio marca a entrada no período de latência. É revivido na puberdade e é superado com maior ou menor êxito num tipo especial de escolha de objeto. O complexo de Édipo desempenha papel fundamental na estruturação da personalidade e na orientação do desejo humano. Para os psicanalistas, ele é o principal eixo de referência da psicopatologia” (LAPLANCHE; PONTALIS, 1992, p. 77).
[2] Uma produção capitalista que neutraliza a criticidade, deixando o público mais passivo ou acrítico em relação ao mundo, deixando-o numa alienação social.
[3] Jornal Uol Eleições 2014. Bolsonaro (PP) é o deputado federal com maior número de votos no RJ. 05/10/2014. Disponível em: <https://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/10/05/bolsonaro-rj-e-eleito-deputado-federal-no-rj-com-o-maior-numero-de-votos.htm>. Acesso em: 04/11/2018.
[4] Jornal Uol Eleições 2018. O poder do mito: A trajetória de Jair Messias Bolsonaro, de militar rebelde a presidente do Brasil. 28/10/2018. Disponível em: <https://www.uol/eleicoes/especiais/a-trajetoria-de-jair-bolsonaro-de-militar-rebelde-a-presidente-do-brasil.htm> Acesso em: 04/11/2018.

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