ATLANTA E INSECURE, PORQUE NÃO TEMOS ISSO NO BRASIL?

Por Henrique Bastos
Estudante de Engenharia da Computação (UEFS) 
Gosta de discutir artes quase sempre.


Esses dias Família Soprano completou 20 anos. Provavelmente você não conhece, mas é a série  que recebia o título de “Melhor série de todos os  tempos”. Antes de Breaking Bad. Por conta desse aniversário eu resolvi fazer uma maratona no meu ritmo, e entre uma visita ao psiquiatra e uma morte de um rival de Tony, assistia a um ou dois episódios de uma série que devia ter começado a assistir a muito tempo. Estou falando de Insecure, da maravilhosa Issa Rae, dona dos melhores penteados afro e das piadas mais venenosas. A premissa da série é simples: duas amigas no final dos seus 20 anos (28 e 29 anos), vivendo todos os dilemas profissionais e amorosos possíveis, na cidade de Los Angeles. O que é uma desculpa ótima para celebridades aparecem de mansinho.

Conheci Insecure através de um amigo que me indicou da seguinte maneira: “Tu gosta de Atlanta? Insecure é uma versão feminina de Atlanta”. Atlanta é uma outra série excelente. Talvez você só conheça o Donald Glover por This Is America, mas ele já fez roteiros para 30 Rock, e atuava em Community, inclusive poucos sabem, mas o Miles Morales, o novo Homem-Aranha, da Marvel, foi inspirado (fisicamente, só) no personagem de Glover em Community. Voltando a Atlanta, a série acompanha Paper Boi (leia como Boy mesmo, o rap em Atlanta tem essa coisa de “escrever como fala”), um rapper em ascensão em Atlanta, seu amigo maconheiro, Darius, e Earn, primo de Paper Boi, que é um projeto de empresário. Donald Glover não só faz o roteiro, como dirige alguns episódios, ele e o amigo Hiro Murai, diretor também de This Is America, Gastam com a cara do telespectador, de verdade, Atlanta  mistura o surreal e o real de uma forma maravilhosa.

Essas duas séries são exemplos de série que você pode dizer que são “a série de fulano” e não são precursoras nem nada, só lembrar de Seinfeld, que era a série do Jerry Seinfeld (E do Larry David também. Porém, o rosto da série era Seinfeld. Para você imaginar como era feio o Larry David). Mas essas duas séries são precursoras por serem atores negros. O mais próximo disso antes era Todo mundo odeia o Chris, mas o Chris Rock não era o rosto da série (talvez pelo mesmo motivo do Larry David). Isso me leva à pergunta do título.

Primeiro empecilho é o monopólio
No Brasil a televisão é a Globo e o resto, com raras exceções. Na emissora as pouquíssimas liberdades são de nomes como Fátima Bernardes e Fausto Silva (“O idiota que tá lá” ainda perco meus lado). Do ponto de vista de série a coisa mais ousada da Globo é  o Tá no ar, e só. A esperança desse  tipo de série nas outras emissoras é no mínimo ingênua, a Record consegue lucrar com sua novelas religiosas, o SBT lucra com novelas para crianças, e a Band, eu não sei o que passa na Band hoje em dia sem Pânico ou CQC.

Meio que tentaram fazer isso
Se você parar de ler antes deste parágrafo, provavelmente vai achar que eu odeio as séries da Globo. Não é verdade, eu gosto de algumas coisas, inclusive uma das minhas séries/filmes favoritas é a consagrada Ó paí, ó. Lembra que Insecure tinha a participações de celebridades interpretando elas mesmas? Ó paí, ó  tem Márcio Victor fazendo isso.

E temos duas tentativas da Globo de colocar negros como protagonistas e promover reflexões sobre o racismo em séries. A primeira foi Sexo e as Negas. Talvez você não se lembre dessa série, foi rapidamente cancelada, eu mesmo só me lembrei graças ao Rincon Sapiência numa linha da música Amores às escuras (eu tinha me prometido não falar de rap neste texto, foi mal). A série pretendia ser uma versão de Sex in the City, com mulheres negras, no Rio de Janeiro. Uma série com a assinatura de Miguel Falabella, que parece ser a autoridade em sitcom da Globo. Foi um fiasco total, além de reforçar os estereótipos de mulheres negras hipersexualizadas.

O outro que chegou mais próximo disso foi Mister Brau. A premissa, tão simples quanto todas as outras, um casal negro que ascendeu socialmente por causa da  música e agora moram em um condomínio de rico. É o mais próximo que chegamos de um Atlanta. A premissa é muito parecida com outra série legal, Black-ish. Mas Mister Brau ainda não é uma Insecure, e Lázaro Ramos tem um programa muito mais autoral, no canal Brasil, chamado Espelho, muito melhor que outros talk-shows (sim, eu acho o Danilo Gentili bem ruim).

Onde há esperança?
Eu acredito que é muito fácil diagnosticar o porquê essas séries não funcionam. A primeira escrita por um homem branco com a intenção de mostrar a perspectiva de uma mulher negra, claro que não ia funcionar. Já o segundo, acho que faltou ser  outra pessoa, não que Lázaro Ramos seja um mau ator, mas acredito que ele não estivesse disposto a fazer uma série diferentona.

Então quem pode fazer isso? Eu não sei, temos comediantes em ascensão como o Yuri Marçal, dono do vídeo de 2 min que eu mais gostei em 2018, Mulher Preta, procura no Youtube que acha. Temos João “Seu” Pimenta, aqui na Bahia, com um humor mais regional e absurdo, que talvez funcionasse em uma série.

Mas ainda tem o problema do monopólio? Tem, mas sabe o único “canal” que bate a Globo? A Netflix e os serviços de streaming. Parece distante mas a Netflix tem duas séries brasileiras no catálogo e, apesar de terem cancelado a animação Super Drags, ainda temos 3%, essa com o certo sucesso de crítica, sem contar a série do KondZilla que eu não faço ideia do que vai se tratar. Ou seja, a Netflix tá disposta em apostar no Brasil. Eu acredito que nós podemos fazer a nossa própria Atlanta.  Muito melhor, até porque Salvador, por exemplo, é uma cidade muito mais legal.

ATLANTA E INSECURE, PORQUE NÃO TEMOS ISSO NO BRASIL? ATLANTA E INSECURE, PORQUE NÃO TEMOS ISSO NO BRASIL? Reviewed by Rede Idea Chek on fevereiro 18, 2019 Rating: 5