INFILTRADO NA KLAN E PONTO CEGO, O CINEMA AMERICANO PÓS-TRUMP

Por Henrique Bastos
Estudante de Engenharia da Computação (UEFS) 
Gosta de discutir artes quase sempre.


Não sei se vocês viram isso na época, mas o Sam Smith agradeceu ao ex-namorado quando recebeu o Grammy. Eu já vi vários artistas falarem sobre como a tristeza e os sentimentos ruins funcionam como uma boa motivação para fazerem suas obras. Levando para um lado menos introspectivo, em situações políticas ruins, muitos artistas encontram a inspiração necessária para fazer obras críticas e muitas vezes ótimas (mas o ótimo é subjetivo, eu sei). Como exemplo, tem a Tropicália, que no meio (talvez até mesmo no auge) da ditadura militar, surge com nomes que hoje são consagrados como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Mutantes e, o mais subestimado de todos, Tom Zé. Existem outros exemplos ao redor do mundo e da história, mas esse eu acho que todo mundo conhece (ou deveria, sei lá).
Em 2016, durante às eleições americanas, um dos meus diretores favoritos, Spike Lee, que quase sempre se posiciona politicamente, fez uma campanha anti-Trump intensa. Primeiro apoiando o Bernie Sanders (um velhinho muito simpático), e depois se rendendo a Hillary Clinton. Bem vocês já sabem o resultado da eleição. Então surgiu uma expectativa para ver como seria a próxima obra de Spike. Em 2017 ele dirigiu os episódios de uma série do Netflix, que é uma releitura de um dos filmes dele, Ela quer tudo. E aproveitou para dedicar um episódio inteiro para mostrar a reação dos personagens à eleição de Trump (o episódio se passa no dia da eleição). Mas eu sabia que viria mais por aí.
Antes de seguir comentando sobre o Spike Lee, uma pausa para falar de rap (eu ainda vou conseguir passar um texto inteiro sem falar de rap). Também em 2017, o rapper Joey Badass lançou um álbum que trata justamente sobre como é impossível não se posicionar politicamente atualmente All-Amerikkka Badass (que acabou ficando na sombra do álbum reverso sobre uma vida quase que inteira do Kendrick Lamar, DAMN, e o álbum experimental e good vibe, do Tyler the creator, que ele aproveitou para sair do armário, ou não, ele nunca “esclareceu”, Flower Boy). Outro rapper que colocou a situação política nas suas rimas foi Joyner Lucas em I’m Not Racist,com um diálogo entre um eleitor de Trump e um negro anti-Trump.

Spike Lee e a certeza de que as coisas não mudaram tanto

Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman) foi a resposta que estava aguardando do Spike Lee. Não quero entrar muito no enredo para não estragar a experiência de quem vai assistir. O filme é a história do primeiro policial negro de uma cidade do interior do Colorado. E na primeira operação dele enquanto detetive, resolve se infiltrar na Ku Klux Klan. Mais uma vez Spike trouxe um elenco muito legal, inclusive o protagonista é interpretado pelo  filho do Denzel Washington. Mas, a tão esperada resposta que eu falei, está no final do filme (não, essa parte não vai te atrapalhar). Com imagens amadoras sobre os protestos de Charlottesville em 2017, um caos, e a reação do mago supremo (eles usam essa nomenclatura, eu sei que é ridícula) da KKK. E o melhor, como essa cara prestou apoio ao presidente americano (inclusive, já declarou gostar muito de Bolsonaro também) e o próprio Trump, também, apoiando os protestos. Durante o filme esse tal mago supremo é zuado toda hora, e esse cara zuado é quem apoia Trump. Essa é a resposta que eu queria. Obrigado Spike.

Ponto Cego é excelente e é de roteiristas diferentões

Outro filme que assisti recentemente, que é um belo exemplo, Ponto Cego (Blindspotting). Um filme estrelado e escrito pelo ator e rapper Daveed Digs e o amigo Rafael Casal. O filme aborda uma dupla de amigos em Oakland, um negro (Daveed) e o outro branco (Rafael). O negro está em seus últimos de condicional e tem que ficar longe de confusão, e o branco, bem o branco é uma confusão ambulante. Em meio a isso o filme expõe como o racismo funciona sorrateiramente nas nossas vidas e esperamos o pior das minorias em geral (o parágrafo ficou curto porque não quero entregar muito, porém, o filme é muito bom, vai assistir, vai).

E no Brasil?

No Brasil acho que temos exemplos de ótimos filmes com críticas políticas. Os dois Tropa de Elite, e a polêmica (na minha opinião, ruim e bem chatinha) série Mecanismo, dirigidos pelo José Padilha. Mas, acredito que existe muito espaço para novos diretores e novos filmes sobre a situação do Brasil. Inclusive, você já viu o documentário que tem no Youtube sobre a facada em Bolsonaro? Achei muito massa e intrigante. Enfim, qual será o filme e como será o filme eu não sei, mas, provavelmente, teremos manifestações artísticas para homenagear o Trump dos trópicos nos próximos anos.

INFILTRADO NA KLAN E PONTO CEGO, O CINEMA AMERICANO PÓS-TRUMP INFILTRADO NA KLAN E PONTO CEGO, O CINEMA AMERICANO PÓS-TRUMP Reviewed by Rede Idea Chek on fevereiro 02, 2019 Rating: 5