NEGO GALLO, O VETERANO QUE EU ACABEI DE CONHECER E JÁ CONSIDERO PACAS!

Por Henrique Bastos
Estudante de Engenharia da Computação (UEFS) 
Gosta de discutir artes quase sempre.



Em outro texto eu reclamei da “geração playlist”. Porém, parte boa da geração em que estamos (talvez a melhor parte), é que está cada vez mais fácil descobrir novos artistas. O cara do título eu conheci na aba “novos álbuns sugeridos”. Veterano  é o segundo álbum solo de Carlos Gallo, de alcunha Nego Gallo, que antes fazia parte do grupo Costa a Costa (vocês sabiam que rolava Costa Oeste e Costa Leste em Fortaleza?), junto com outro rapper importante nacionalmente, Don L. Essas duas coisas eu pesquisei no Google para descobrir. Durante essa pesquisa fui descobrindo mais coisas sobre Carlos Gallo. Acho que a mais legal é que ele descobriu o rap pelo movimento negro de Fortaleza, e o melhor, ele, durante uma briga de gangue, ouviu, de um sujeito que assistia, que aquilo tava errado e que as pessoas eram todas iguais.
Nessa entrevista, para o site Destak ele ainda destaca (não resisti ao trocadilho) cada faixa do álbum. Eu não vou fazer isso, só às faixas que mais gostei. Então vai ser quase. O álbum é uma mistura deliciosa de reggae, rap, e funk, um álbum que foi feito para rua mesmo. Não que não goste de Bluesman, mas é um álbum que não vai acontecer de você, sem querer, pegar um grupo de pessoas ouvindo em um som alto. Com Veterano, talvez por essa mistura, é mais ‘acessível’ (não sei se é a melhor escolha de palavra). Então vamos falar das músicas. Enxugue seu rosto, que já são 12 e o mundo não vai esperar.

No Meu Nome, storytelling tinindo
Para começo de conversa Nego Gallo, chama Don L e divide uma narrativa sobre Fortaleza. No primeiro verso Gallo é um jovem que vive a realidade da favela, e a iminência de ser preso. Enquanto isso deixa referência a Emicida e ao Islamismo nos EUA, que tinha Malcom X um dos nomes mais conhecidos. No segundo verso Don L, mais como observador, conta a ascensão e a queda de um jovem no crime organizado. No meio disso, comparando o tráfico com o agro, aquela propaganda do ‘agro é tech, agro é pop’, esses termos são comparados ao som das armas. No fim Don L evidencia como o jovem de periferia “corre o dobro pra viver a metade”, e monta uma “rede de contatos” em presídios de segurança máxima.

O Bagui Virou, o hit
Lembra o que eu falei de ouvir às músicas desse álbum na rua? Essa daqui é a mais provável de você ouvir, um refrão de funk, e uma letra de superação e de finalmente, Carlos tem 44 anos, gozar dos louros da fama e toda a ‘batalha’ tá começando a virar conquista (acredito que depois desse álbum ele vai entrar nos top 10 rappers de todo mundo). E cantando toda essa felicidade Gallo fez um hit digno de Mc Kevinho e Mc Livinho.

Downtown, me convidem para esse tipo de festa
 Nessa faixa Gallo traz uma perspectiva bem interessante: nas mesmas ruas que ele vê gente morrer ele encontra festas maravilhosas. E volta a ressaltar (também faz isso na faixa Onde Há Fogo Há Fumaça) como as pessoas da favela em que ele se encontra são pessoas de bem de verdade, diferente do que a televisão te mostra (ele critica a televisão em todas as faixas desse álbum praticamente). E então chega o refrão que é simplesmente uma quebra no padrão de beleza. Carlin (vou chamar ele assim, mesmo não sendo íntimo, aceitem) grita ao quatro ventos MINHA DONZELA TEM TRANÇA NAGÔ. Provavelmente minha faixa preferida do álbum.

 DVD, rimas sobre encomenda
 Essa faixa, e o interlúdio que vem antes, é a que tem a história mais interessante para mim. Carlin fez essa música a pedido de uma pessoa que estava em privação de liberdade. Até meio relutante, Carlin foi lá e fez faixa pois sentiu verdade no que o cara falou. Um rap em cima da batida de funk, feito a pedido de um cara em uma prisão, eu não poderia pedir mais.

Acima de Nós Só o Justo, fechando com chave de ouro
Concluir um álbum não é fácil. Muitas vezes a última faixa termina definindo a opinião das pessoas sobre o álbum. Carlin lidou com isso muito bem. Mantendo a pegada das outras faixas, ele convidou 2 MC’s daqui da Bahia (Galf AC e DaGanja) e um outro de fortaleza (MC Mah). 3 flows diferentes, combinados de novo, numa  batida excelente. Coro MC e Léo Grijó são os responsáveis pelos beats do álbum merecem muito crédito.

Veredito
O álbum é uma maravilha, as outras 3 músicas que eu não falei, são muito boas, e acho todas com cara de rua.Não me entendam mal é ótimo quando um artista mistura ritmos, digamos ‘eruditos’ e o rap e o hip-hop, vide Bluesman ou To Pimp a Butterfly que pra mim é o melhor álbum da década de 2010, se não for de todos os tempos (desculpa, Nas e Illmatic, só queria exemplificar, nunca mais falo isso). Mas o rap é para o povo, o rap é das ruas, você pode não gostar, mas o povo gosta de funk. Na Bahia o povo ama pagodão, se no final do ano tivemos Rincon Sapiência homenageando a Bahia com o verso livre Mete Dança, rimando em cima do pagodão, Nego Gallo ambientaliza  e homenageia Fortaleza (ou 4town, ou Fortal) com essa mistura maravilhosa de funk, reggae e o mais puro rap.


NEGO GALLO, O VETERANO QUE EU ACABEI DE CONHECER E JÁ CONSIDERO PACAS! NEGO GALLO, O VETERANO QUE EU ACABEI DE CONHECER E JÁ CONSIDERO PACAS! Reviewed by Rede Idea Chek on fevereiro 09, 2019 Rating: 5