LA FUREUR DE LA BAIE DE TOUS LES SAINTS

Por Alan de Sá
Jornalista, Escritor, Roteirista e Publicitário por atuação 
Já fez quase tudo nessa vida, mas o nada sempre teve um sabor especial.
Gosta de mágicas baratas, malabarismo em supermercados de bairros e desobediência civil literária.


Eu sou de um tempo em que o sucesso do verão era “Contregum”, do Psirico, que havia deixado de fazer shows com ingresso à dez reais no Feira Tênis Clube, tocando com latas de tinta amassadas. De um tempo em que o hype em Harmonia do Samba trouxe Guig Ghetto e Oz Bambas aos holofotes baianos com “Pressão”, “Cabeça de Gelo” e “Manuela”. De uma época em que “Ovo de Avestruz”, “Sminorfay” e “Se você quer, tome”, sucessos do Pagodart, faziam a cabeça dos jovens periféricos da Bahia.
Mas não a de Jorge Amado. A Bahia de todos os santos e demônios. A Bahia real.
O pagodão chegava com força nas classes mais baixas. Era ele quem fazia a cabeça dos jovens. O Rodo, Saiddy Bamba, Oz Kamaradas, Leva Nóiz, No Styllo, bandas clássicas deste período, e que não tocavam em YouTubes, Spotifys, Deezers ou iTunes da vida. Grupos com letras criativas, percussões marcantes e posturas que ecoavam dentro dos garotos e garotas de minha época. Nesse período, o pagodão tinha, para nós, o mesmo impacto que o funk tem para os cariocas ou o rap para os paulistanos. O pagodão era nossa marca, nossa forma de expressão mais pura.
Eu tenho 24 anos. Isso foi há 15.
De lá para cá, tudo mudou. A gente trocou o Motorola V3 pelo iPhone, a Kenner trançada pelo Vans, as bermudas de veludo da Cyclone pelos conjuntos da Gucci e a marcação d’A Bronkka batendo nas “bocas de 30” do “celtinha barca” pelas letras sertanejas das maiores duplas sertanejas de todos os tempos da última semana nas JBLs.
As únicas coisas que não mudaram neste tempo foram a estereotipação sofrida pelo pagodão pela elite baiana – ou, melhor dizendo: a classe média que não sabe que é pobre – e o poder de contravenção exercido pelo ritmo musical. Neste sentido, dois grupos foram essenciais para expor musicalmente a violência estatal sofrida nas múltiplas Bahias espalhadas pela Bahia: Parangolé, comandada por Nenel e Bambam, desvelando uma Salvador real em A Verdade da Cidade (2007), e Fantasmão, liderada pelas letras fortes e voz potente de Eddye (ex-Parangolé inclusive).
As coisas mudaram, claro. O pagodão entrou em decadência, muito por conta das escolhas que o Governo do Estado, antes por Jacques Wagner, hoje por Rui Costa, fizeram, elegendo qual a Bahia de Todos os Santos de defendiam. A invasão dos funks cariocas, carregados da cultura, do linguajar e das vivências deles, tomou a mente e as visões dos “browns”.
E, no meio disso tudo, veio Lá Fúria.
Quando Lá Fúria chegou, o consumo de música externa (e, aqui, posso tratar tranquilamente os funks cariocas e paulistas como quase que estrangeiros) era tão forte que a primeira reação foi tornar o nome da banda em uma gíria. As minas periféricas, em sua versão mais estereotipada, foram apelidadas de lá fúria, justamente por compor o público-alvo da mesma.
Só que Lá Fúria já não trouxe o mesmo estilo que as bandas de pagodão que bombaram entre os anos de 2006 e 2009, assim como as que foram sucesso entre 2003 e 2005 eram de uma linhagem distinta. O grupo de Bruno Magnata trouxe um pagode mais sexualizado, em alguns pontos pornográfico, iniciado pro Black Style, na época de Robyssão e propagado por grupos como a findada Kolé i Pan do feirense Marlon Góes (não confundir com a formação atual) e a soteropolitana Invasão.
Porém, houve com Lá Fúria o mesmo que aconteceu com o funk carioca e paulista, com o rap, com o sertanejo, com o samba e, décadas atrás, com o axé: o processo de gourmetização.
Não me entenda mal, eu gosto de Lá Fúria. Mas, se algumas coisas precisam ser ditas, elas serão: houve uma clara apropriação da elite sobre o pagodão baiano.
Com seus principais ícones em baixa – Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Chiclete com Banana, Daniela Mercury e os filhos de Dona Canô –, a elite soteropolitana teve de se reinventar. Precisava de música baiana (mais precisamente, soteropolitana) para mostrar ao povo das Bahias – e nenhuma delas a real – que se consome, sim, música da terra. Neste balaio de gato escaldado, Baianasystem (que possui generalidade musical além do pagodão), ÀTTOOXXÁ (que ganhou destaque recente por sua conexão entre a música eletrônica e a raiz da musicalidade baiana) e Lá Fúria, com suas letras ousadas e paródias, se tornaram produtos do acarajé vegan com azeite de oliva extravirgem.
Aliado a um Carnaval que separa os pagantes e turistas em blocos dos moradores empolgados pela festa, dividindo os dois grupos entre pessoas que trabalham no Carnaval x pessoas que bancam o Carnaval, temos uma festividade que, em nada, representa o povo residente nas periferias da Bahia, mas esta não é a mesma dos trios elétricos.
Entenda: não há problemas na elite ouvir pagodão. O problema está no sequestro do único ritmo baiano que realmente entra com força nas periferias da cidade. O problema está na não identificação do povo com o único ritmo que o fazia ir aos carnavais, micaretas e festas populares.
Dentre os males, ainda se possui uma salvação. Igor Kannário, o polêmico cantor, vereador e autoproclamado príncipe do gueto, ainda segue liderando a frente de resistência ao pagodão gourmet, que ainda possui nomes como Edcity (que também mescla o rap e o trap) e Chiclette Ferreira, ex-No Styllo e um dos críticos mais ferrenhos ao que vem sendo feito com o pagodão. Nomes como estes, que arrastam multidões nas pipocas dos carnavais – pipocas, estas, visadas como minas de ouro pela polícia racista e assassina de Rui Costa –, que não sentem medo algum em criticar prefeituras e governos em suas apresentações e que, de alguma maneira, faz com que o povo periférico ainda tenha o mínimo de vontade em acompanha-los, sejam nas redes sociais, nos sons dos carros ou nas festas de rua.
Poderia terminar este texto com tom saudosista, falando do quanto sinto saudades dos tempos que todo mundo ia quando a Carreta passava, das reuniões para “meter a swingueira” nas carteiras e lixeiras da escola, das letras descontraídas e das percussões marcantes. Mas prefiro que, tudo isto, permaneça em minha memória. As coisas mudam. Não gosto de falar em “evolução”, pois nem tudo que muda, é para melhor ou para um grau comparativo maior. Mas passam por transformações. Assim foi com as pessoas, com a tecnologia e o pagodão não seria diferente. Mas é preciso salientar que a raiz de toda a quebradeira é, verdadeiramente, a fúria da Bahia, mas não a de todos os santos.

LA FUREUR DE LA BAIE DE TOUS LES SAINTS LA FUREUR DE LA BAIE DE TOUS LES SAINTS Reviewed by Rede Idea Chek on março 02, 2019 Rating: 5