O FUTURO NÃO DEMORA E PROVAVELMENTE VAI TER MUITO BAIANASYSTEM


Por Henrique Bastos
Estudante de Engenharia da Computação (UEFS) 
Gosta de discutir artes quase sempre.


Finalmente Baianasystem voltou a lançar um álbum. O grupo, que é baiano até no nome, tinha lançado Duas Cidades  em 2016, e no carnaval de 2017 viralizou  com um sonoro #Foratemer no carnaval de Salvador. Eu particularmente não consigo nem definir o gênero musical do grupo, eles e Roça Sound se auto intitulam “ representantes da cultura do Sound System” não acho suficiente, o Roça possui 3 do que alguns críticos americanos chamam de 4 elementos do hip hop (mc, dj, graffiti e bBoys), então Sound System seria o que o hip hop já foi? (mais ou menos ali antes de 1980). Enfim a definição não é tão importante assim (acho que nem para mim ou para os dois grupos).

Bem depois de eu dar a minha valorizada de costume nos artista de prefixo 75 (até porque para mim baiana é o roça sound de salvador, brincadeira)  voltemos a baiana. Um grupo que usa música para expressar suas indignações e posições, dessa vez convocaram uma galera muito boa, mais uma vez Daniel Ganjaman, assina a produção (você não leu errado  fã de rap, o cara que produziu pro Sabotage, produziu pro Criolo, e foi um dos poucos a criticar Damn,  produziu dois álbuns de Baianasystem), Vandal o rapper de Salvador com uma agressividade ímpar(corram atrás das duas mixtapes dele TIPOLAZVEGAZ,  e VARONILH), BNegão rapper carioca ex-Planet Hemp (curiosidade sobre a minha pessoa o primeiro álbum de rap que eu ouvi, foi o álbum solo do BNegão Enxugando gelo, obrigado painho por me apresentar), e  a Orquestra Afrosinfônica ( que abre e fecha o álbum) são algumas das participações que compõe a obra.

O próprio grupo  divide o álbum em duas partes, a primeira parte, Água, e a segunda, Fogo, a faixa que divide as duas partes é Melô do centro da terra na primeira parte uma conversa entre si, e si mesmo ou seja muitas reflexões e decisões tomadas, e na segunda parte um grito para o resto da sociedade, eu escolhi 3 faixas da primeira parte e outras três da segunda, além claro da faixa que divide, sem mais conversa vamos paras as músicas, até porque o futuro ninguém vê, o passado já passou e o presente é você.

Bola de cristal, quem vai mudar o mundo sou eu!
Uma música contemplativa de quem acompanha tudo que acontece à sua volta de uma mãe que perde seu filho, e como outras pessoas não ligam, e vivem a vida normalmente passando o visa enquanto outros passam fome. Aí que o artista percebe, que quem vai mudar o futuro é ele e ninguém consegue prever o que está pela frente, o passado já passou, e o presente é você, e você (no caso o próprio) tem capacidade para mudar o mundo.

Salve, vocês não estão sozinhos
De novo ele está a observar a cidade, e mais uma vez observa o sofrimento em algumas pessoas porém a constatação é que tudo aquilo que aflige essas pessoas também acontece com ele, também atinge ele, também queima ele. Ao chamar nomes de Mandela e Luther King, se identifica de novo como a ferramenta para mudar o mundo, não só revolucionários políticos, mas revolucionários da música também como: Nação Zumbi, Rumpilezz, Ilê Ayê. Ao fim BNegão (eu tinha que falar dele) identifica os grupos com quais acontece às injustiças identificadas, e os convoca para serem as ferramentas para mudar o mundo

Sulamericano, ele tava falando de mundo mesmo.
Depois de duas músicas observando o que acontece, ele se prepara para contra-atacar os causadores de tudo aquilo, começando a música lembrando que é um sul americano de Feira de Santana (Eu só descobrir que ele é de fato feirense esses dias), e que não se enganou com Obama, ou vocês acharam que eleger um presidente negro ia erradicar o racismo? Além disso aproveitando que reforça sua identidade sul americana no início da faixa, ele  cita o livro de Eduardo Galeano (que além de renomado escritor, era torcedor do Nacional de Montevidéu, gosto muito dele), que trata da América que sofreu com a dominação dos europeus e sofreu com ditaduras durante sua história. Nessa faixa ele se identifica como cidadão do mundo e que a libertação deve envolver todo o globo.

Melô do centro da terra, O interlúdio
A faixa divisor de águas da obra, a faixa onde o centro da terra (Fogo) se encontrar com o fundo do mar (Água), um interlúdio conciso, poético, que cumpre seu papel com maestria, avisando ao ouvinte o que vem a seguir, muito bom, de verdade.

Navio, Quem se incomodou com a morte de Mestre Moa?
Para começar com o fogo, nosso revolucionário mostra que enquanto estamos remando e nos matando para manter o navio seguindo, quem manda no navio tá na proa, para ser mais  claro ainda quem manda no Brasil tá de boa, enquanto pessoas se precipitam, pessoas discutem, pessoas se matam por discussões políticas. E para exemplificar termina a faixa com uma homenagem a Mestre Moa, assassinado na época das eleições por causa justamente de uma discussão política.

Arapuca, rimas  agressivas e necessárias
Já no final da obra, surge um compilado, talvez até meio que de freestyle, aproveita para “queimar” toda a situação da política brasileira, desde a mídia que usa régua de Eduardo Cunha (Condena Dilma, libera Temer), ou o Helicóptero (ou seria Helicoca, os fãs de Roça sound vão entender), até  às entregas de propina pro filho do rei momo (cof, cof Queiroz).

Certopelocertoh, Vandal na caça do milhão
Chegou a hora do convidado Vandal (que vem tendo um dos melhores anos no rap nacional, competindo com Nego Gallo e talvez o L7nnon), mantendo  a mesma pegada da faixa anterior, mas dessa vez com uma reflexão sobre si, depois de ter tocado fogo ao longo do lado B da obra, em que estado se encontra o nosso revolucionário e ele se encontra disposto, raivoso, e pronto para novas batalhas novos inimigos e para correr pelo certo, na verdade  Certopelocertoh!

Água e Fogo, os conceitos a introdução e a despedida
A primeira e a última faixa da obra são definitivamente o fio condutor de tudo Água lhe prepara para imergir nessa viagem, enquanto fogo Fogo, te relembra os lugares que você visitou.

Veredito
A obra é maravilhosa, eu não falei de todas as músicas (é uma estratégia minha para fazer vocês ouvirem o resto do álbum), mas todas possuem ou referências ou mensagens dignas e às vezes os dois na mesma faixa e todas mantêm o ritmo dançante e contagiante que já é típico do grupo. Em outro texto eu comentei como a eleição de Trump acabou por promover obras diferentes no cinema americano, e em outro falei como a música de mensagem não deve se focar em tocar só em festivais mas nas ruas também (o texto do Nego Gallo), bem BaianaSystem faz os dois nessa obra com criticas contundentes e a reflexões feitas ao observar e contemplar a situação que se vive hoje em cidades brasileiras.

O FUTURO NÃO DEMORA E PROVAVELMENTE VAI TER MUITO BAIANASYSTEM O FUTURO NÃO DEMORA E PROVAVELMENTE VAI TER MUITO BAIANASYSTEM Reviewed by Rede Idea Chek on março 01, 2019 Rating: 5