TÁ PROIBIDO O CARNAVAL?

Por Iago Gomes
Graduação em Letras pela UEFS
Ativista LGBT, Antirracista e Anticapitalista
Redator do Blog Idea Chek e Produtor e Divulgador de Conteúdo.





Presidente compartilhar vídeo de chuva dourada em seu Twitter, canal oficial do governo, pode? PODE! Coro ritmado em meio a folia baiana mandando o presidente da república tomar no quinto duzinfernos, pode? PODE! Escola de samba paulista gritar que “O Diabo venceu” e deixar os mesmos que elegeram o diabo para presidência da república nervosos, pode? PODE! Escola carioca dar surra política na avenida e expor a polarização, onde de um lado temos um bode conservador na presidência, pode? PODE! Campeã paulista contando a história de uma heroína negra sempre mantida no ostracismo, pode? PODE! A Mangueira dar aula de história e política na avenida pode? DEVE!

Afinal, 2019 foi o ano em que o Carnaval brasileiro foi o mais politizado e crítico de sua história? Talvez. Mas o que trouxe a festa, a folia, a diversão para uma grande manifestação crítica e pró-liberdade? Óbvio que possuir na configuração política-institucional do país Jair Messias Bolsonaro e toda a tropa do PSL e agentes dispostos ao autoritarismo, à repressão e a passos em direção contrária jogou escolas de samba, foliões e a mídia na rota da ofensiva, mas acredito que vai além: estamos encarando de frente a batalha do revisionismo histórico.

A música “Proibido o Carnaval” de Daniella Mercury e Caetano Veloso é um manifesto de resistência e antecipação do Twitter de Bolsonaro criticando a maior festa de rua do mundo em que ele utiliza uma cena polêmica e explícita. A leitura do desfile da Mangueira nas ruas trouxe Marielle e muitas outras heroínas e heróis numa espécie de contraposição ao torturador heroizado pela cúpula e seguidores bolsonaristas. Assim como o resgate histórico da Mancha Verde foi sensacional! Menção honrosa a Tuiuti. Não se trata da intelectualização do samba brasileiro, porque ele sempre foi, mas não nos modes acadêmicos distanciados do popular. Talvez muitos que aplaudiram os feitos carnavalescos de 2019 não se deram conta que a preparação desses blocos começou antes das eleições 2018 e não é profecia dos responsáveis, mas leitura política de dentro do estado que mais tem sofrido com a violência e o crescimento do ódio. O Rio de Janeiro bateu nesse início de ano recordes de assassinatos. Quem mora nas comunidades já conhecem a política de Bolsonaro e sabiam das chances dele chegar lá.

Na Bahia, a direção foi objetiva: “Ei, Bolsonaro, vai tomar no cu”! Essa se tornou a música do carnaval baiano. Puxados por BaianaSystem, a voz do povo baiano é a voz do povo preto e periférico. Não havia dúvidas, na Bahia, a rebelião inspirada nos Malês, na Revolta do Buzú e no #ForaTemer de Baiana em outros carnavais contrasta com necessidade urgente de superar a folia e enfrentar o modelo bolsonarista de Reforma da Previdência, que começará a ser foco no Congresso.

O Carnaval não foi proibido, a luta não foi proibida, presidente tuitar pornografia não foi proibido. Tá proibido proibir e a história mostra isso.

TÁ PROIBIDO O CARNAVAL? TÁ PROIBIDO O CARNAVAL? Reviewed by Rede Idea Chek on março 06, 2019 Rating: 5